Agilidade na vacina: como o varejo pode ser a força que falta?

Agilidade na vacina: como o varejo pode ser a força que falta?

Mike Smollan*

18 de agosto de 2021 | 03h30

Mike Smollan. FOTO: DIVULGAÇÃO

À medida que o mundo entra em uma nova fase do COVID-19, estamos começando a lidar com os aspectos práticos. Já descobrimos onde estão nossos problemas de saúde. Temos uma visão mais clara de como adaptar o nosso estilo de vida de forma a desacelerar a doença. Mas, um problema prático que enfrentamos agora e ainda não evoluímos na velocidade necessária é como gerenciamos a distribuição da vacina.

É muito bom ouvir os políticos falarem sobre o número de vacinas que temos e informando o prazo de quando elas chegarão. Mas, quando vivenciamos a falta de doses nos postos de saúde antes do final do dia, levanta-se muito mais questões sobre o plano que tem sido seguido (ou potencialmente a falta de um).

A vacinação envolve literalmente milhões e milhões de injeções únicas que precisam chegar ao seu destino; ser ou não mantidas frias durante o transporte; ser divididas em lotes menores; enviadas para cidades do País inteiro e, em seguida, para as mãos e geladeiras dos postos de saúde. Depois, exige que as pessoas – uma a uma – façam fila para serem registradas, vacinadas, e, algumas semanas depois, voltem para a segunda dose. E tudo isso precisa ser administrado para que exista êxito no processo.

Em um primeiro momento pode parecer simples, mas a logística e a complexidade de conseguirmos suprimentos médicos básicos diários para todas as partes do País é um grande desafio por si só, apesar dos esforços extras de distribuição em um cenário pandêmico. Adicione a isso os problemas em torno do sentimento anti-vacina de alguns, junto com a falta de informação e o ceticismo, o que pode significar que muitas pessoas não farão fila para receber uma vacina. O programa de distribuição de vacinas precisa ser permeado por uma face de educação e de sensibilização para toda a população.

Eu pessoalmente mapeei muitas vezes essa jornada. Não porque sou um especialista em programas de vacinação, mas porque tenho vivido e respirado as cadeias de suprimentos dos bens de consumo rápido para o consumidor final por mais de 20 anos. Pegue o leite, por exemplo. Não há tarefa mais difícil do que colocar leite fresco na geladeira de um consumidor por meio de uma grande rede de lojas. E o ponto é: grande parte das pessoas querem o leite, só não tenho certeza de quantas querem a vacina.

É por isso que acredito que não há melhor plataforma para ajudar a levar a vacina às pessoas do que as redes de distribuição do varejo. O Grupo Shoprite, como um exemplo sul-africano, provavelmente tem mais penetração na área rural da África do Sul do que a eletricidade ou a água. Assimile isso por um minuto. Eles têm essa enorme rede capilar para transportar mantimentos frescos e secos para dentro e para fora das comunidades, assim como artérias transportam sangue de e para o coração. Eu sei disso porque temos pessoas nessa rede nacional de varejo apenas esperando que produtos possam ser colocados nas prateleiras, para então apoiar os consumidores com as informações corretas e garantir um ponto de venda atraente para as pessoas comprarem.

Se eu tivesse no governo, pediria ajuda aos varejistas, pois eles estão acostumados com esses tipos de implementações em massa, além de serem capazes de coletar e comparar dados relevantes. A COVID certamente nos ensinou, no ano passado, o potencial que reside nas parcerias públicas, governamentais e privadas. Por isso, se eu estivesse sentado nas cadeiras presidenciais, pegaria o telefone e ligaria para Andy Jassy, que acabou de substituir Jeff Bezos como CEO da Amazon, e Doug McMillion, CEO do Walmart, e lhes daria o controle total sobre a distribuição da vacina. Eles fariam isso em algumas semanas.

Eu tenho certeza que se a Hindustan Unilever pode fornecer um minúsculo pacote de sabão em pó a um milhão de aldeias indianas rurais para seus microempresários Shakti venderem, eles podem enviar vacina para praticamente qualquer lugar do mundo e rastrear exatamente como isso será/foi feito. Novamente, sei disso porque supervisionamos esse programa na Índia para a Unilever. Só posso imaginar como seu CEO Alan Jope e sua equipe aproveitariam a oportunidade de fazer parte dessa distribuição global.

A capacidade da cadeia de suprimentos para o consumidor por parte dos varejistas e fabricantes é única. Sua capacidade de colocar produtos nas mãos do consumidor e, neste caso, vacinas nos braços, poderia funcionar perfeitamente como um universo paralelo à cadeia de suprimentos atual. Claramente, os governos do mundo devem se alinhar com esta capacidade e eu acho que o ecossistema varejista do mundo, e eu incluo nosso próprio negócio aqui, ficaria muito orgulhoso de fazer parte da solução, enquanto o mundo se restaura dessa grande interrupção.

Sinto que os governos, em tempos de trauma, precisam pensar quem seriam os parceiros mais eficazes para se ter a bordo. Aqueles que são capazes de resolver problemas da maneira mais rápida, eficiente e eficaz possível. Para não pensar que eles mesmos podem conseguir uma implementação dessa magnitude, pois com o maior respeito, sabemos que a burocracia e os sistemas não permitem que muitos governos se movam rapidamente. As parcerias corretas e cuidadosamente avaliadas podem se mostrar benéficas e preencher as lacunas existentes na cadeia de abastecimento, já que, neste caso, o ditado “o tempo não espera por ninguém” fala alto.

*Mike Smollan é Chief Growth & Innovation Officer na Smollan

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