Agenda ESG em tempos de guerra

Agenda ESG em tempos de guerra

Rodrigo Bertoccelli, Davi Lago e Roberto Livianu*

21 de março de 2022 | 08h55

Rodrigo Bertoccelli, Davi Lago e Roberto Livianu. FOTOS: DIVULGAÇÃO

A invasão russa na Ucrânia colocou em xeque o arranjo político-econômico internacional sofisticado, arquitetado e pactuado em Bretton Woods, a partir do qual nasceriam o Banco Mundial e o FMI. Tudo parece que ter ruído e se faz necessário debater e edificar uma nova fórmula. A tarefa não é fácil num mundo tão conflituoso, com tantas e assimetrias no que diz respeito ao poder e à riqueza, além de vulnerabilidades e misérias extremas que vêm caracterizando o terceiro milênio.

As dimensões do conflito mobilizaram as cúpulas das organizações mais importantes do mundo – da ONU à OTAN, da União Europeia ao Banco Mundial – e desestabilizaram o preço do barril de petróleo, as cadeias de distribuição de serviços, produtos e commodities, e o mercado como um todo. É neste contexto que a agenda ESG, baseada em boas práticas de governança corporativa com responsabilidade ambiental e social, sofre testes severos.

Raghuram Rajan, ex-economista-chefe do FMI e ex-presidente do Banco Central da Índia enfatiza, em entrevista ao Valor Econômico publicada esta semana, a necessidade de uma reengenharia global com o envolvimento das nações no processo de discussão, pois sob seu ponto de vista a ONU está sendo totalmente incapaz de agir neste caso.

No campo da governança, as instituições em geral já sofrem impactos diretos e indiretos com as sanções aplicadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia aos russos. Vale destacar o banimento dos bancos russos do sistema Swift, que permite a padronização de informações financeiras e transferência de recursos ao redor do mundo.

Esta medida pode ter efeito bombástico no aumento da corrupção na Rússia de Putin e aumentar os riscos às empresas que mantiverem relações comerciais com empresas russas. Rajan vê com extrema preocupação os riscos de colapsos em investimentos transnacionais globais que podem advir de enfrentamentos de algumas nações como subproduto destas sanções financeiras, com complôs de umas contra as outras.

Isto afeta a capacidade de transferir recursos para dentro ou fora da Rússia. Assim, o que mais preocupa são os meios de pagamento não usuais para empresas ou acionistas russos, sobretudo realizados em espécie ou criptomoedas, o que pode acontecer fora das lentes do compliance e aumentar ainda mais o risco de corrupção. O pagamento por criptoativos dificulta a identificação de práticas criminosas como corrupção, lavagem de dinheiro, narcotráfico, tráfico de armas e financiamento ao terrorismo.

Ambientalmente, a guerra também será devastadora. Além da Ucrânia já ser dona de um passivo ambiental gigantesco herdado da antiga URSS, as guerras por si só já são grandes poluidoras, uma vez que explosivos, tanques e blindados geram milhares de toneladas de partículas de carbono que são lançadas na atmosfera. A tomada da antiga usina de Tchernobil pelos russos nos últimos dias reacendeu o temor global de um holocausto nuclear. Isso sem falar que a reserva de gás natural da Rússia é um dos grandes trunfos de Putin, o que ressalta a necessidade de uma transição energética nos demais países do globo de forma eficiente e rápida. Hoje, a questão ambiental é uma questão geopolítica incontornável.

O ponto de interrogação sobre o mundo é gigantesco, pois a Rússia é potência nuclear, ao lado dos Estados Unidos (a maior), Reino Unido, França e China. Além do gozo do assento permanente no Conselho de Segurança, não se sabe até onde Putin é capaz de ir e quais os escrúpulos e limites em relação ao uso de armas nucleares, que pode ensejar reações das demais potências, que pode ser o estopim de uma hipotética terceira guerra mundial.

Socialmente, guerras violam direitos humanos e ataques à Ucrânia vem atingindo civis, devastaram cidades inteiras e geraram ondas crescentes de refugiados em nações vizinhas como Polônia e Romênia. São milhões de pessoas desabrigadas, desorientadas, feridas agudamente no corpo e na alma.

Desde o começo da guerra o número de empresas que deixaram a Rússia como resposta à invasão militar só aumenta. O movimento é uma resposta das companhias à pressão de consumidores e investidores que cobram compromissos mais rígidos das corporações em temas ambientais, sociais e de governança. Ao interromperem os negócios com a Rússia, as empresas sinalizam que estão preocupadas com essa agenda que envolve princípios éticos e reputacionais.

No front informacional, Putin não admite que a guerra seja chamada de guerra. Desde 4 de março, a Duma (parlamento russo), a mando do autocrata aprovou lei neste sentido, proibindo o uso desta palavra e outras equivalentes. O morticínio, que já exterminou quase 600 vidas de civis ucranianos, deve ser chamado eufemisticamente dentro do país pela referência operação militar especial.

Pessoas que protestam são detidas aos milhares porque simplesmente não existe o direito à livre expressão. Consta terem sido já catorze mil as prisões de russos que ousaram se manifestar contra a guerra. E as mulheres não possuem direito à integridade física, pois lá vigora a lei Putin, de 2017, que despenaliza criminalmente atos de violência doméstica contra elas, sujeitos apenas a leves consequências administrativas.

Eleito em 2000 pela primeira vez presidente da Rússia, seu exercício prolongado de poder lembra o tempo dos czares e isto justifica sua menção na obra dos professores de Harvard Ziblatt e Levitsky “Como as Democracias Morrem”, como exemplo de figura que conquista o poder pelas portas democráticas e depois aniquila sistematicamente as instituições.

A guerra extermina e amplifica de forma nua e crua desigualdades sociais, intensifica a devastação ambiental e eleva a vulnerabilidade dos Estados diante da corrupção. Portanto, refletir sobre as implicações da guerra para a agenda ESG, fundada em princípios éticos que valorizam o ser humano e suas relações socioambientais, é jornada que nos diz respeito. A guerra na Ucrânia atinge a todo o mundo globalizado, relativizando-se os conceitos de distância. Como indagou sabiamente a escritora ucraniana Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Nobel de Literatura, “o que significa longe e perto depois de Tchernobil, quando já no quarto dia as suas nuvens sobrevoavam a África e a China?”

*Rodrigo Bertoccelli. 42 anos. Advogado. Especialista em Direito Processual Civil. Pós-graduado em Contratos Empresariais pela FGV-GVLaw e Extensão Executiva em Business and Compliance pela University of Central Florida e International Management & Compliance pela Frankfurt University of Applied Sciences. Diretor executivo do Instituto Não Aceito Corrupção

*Davi Lago. 26 anos. Professor universitário. Escritor. Coordenador do grupo de pesquisa “Cidades Transparentes” no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP. Mestre em Teoria do Direito pela PUC Minas e especialista em Storytelling & Branded Content. Diretor executivo do Instituto Não Aceito Corrupção

*Roberto Livianu. 53 anos. Procurador de Justiça criminal em São Paulo, Doutor em direito pela USP. Articulista dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo e comentarista do Linha Direta da Justiça da Rádio Bandeirantes. Escritor, professor e palestrante. Presidente do Instituto Não Aceito Corrupção

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