‘Afonso zelador do triplex’, candidato a vereador em Santos pelo PP

‘Afonso zelador do triplex’, candidato a vereador em Santos pelo PP

José Afonso Pinheiro foi demitido em abril do edifício Solaris, no Guarujá, depois de revelar ao Ministério Público detalhes da presença da família Lula no prédio

Mateus Coutinho e Julia Affonso

02 de setembro de 2016 | 13h50

zeladorlula2
Com um terreno declarado R$ 13,2 mil e filiado a um partido suspeito de desviar R$ 358 milhões da Petrobrás, o PP, o ex-zelador José Afonso Pinheiro, demitido em abril do edifício Solaris, no Guarujá, após depor contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou sua candidatura a vereador em Santos neste ano.

No seu registro de candidatura, o nome na urna faz referência ao apartamento que ficou famoso em todo o País com os avanços da investigação da Operação Lava Jato e do Ministério Público de São Paulo: “Afonso zelador do triplex”.

O hoje ex-zelador depôs no dia 23 de outubro de 2015 ao Ministério Público de São Paulo, que apurava um esquema de desvio de dinheiro nas obras da Bancoop – cooperativa dos bancários de São Paulo responsável pelo empreendimento no Guarujá até 2009.

Fachada do Condomínio Solaris, no Guarujá. Foto: MOTTA JR./FUTURA PRESS

Fachada do Condomínio Solaris, no Guarujá. Foto: MOTTA JR./FUTURA PRESS

O zelador disse aos promotores Cássio Conserino, Fernando Henrique Araujo e José Carlos Blat que a ex-primeira-dama Marisa Letícia, mulher de Lula, ‘chegou a frequentar o espaço comum do edifício indagando sobre o salão de festa, piscina, áreas comuns’. Segundo o zelador, ‘os familiares do ex-Presidente chegavam com um passat/preto e um carro, prata, inclusive sabe dizer que eles chegavam com um corpo de seguranças, três ou quatro’.

José Afonso Pinheiro relatou também que “o funcionário Igor, da OAS, pediu para que não falasse nada, ou seja, de que o apartamento seria do Lula e da esposa, mas, sim, deveria dizer que é pertencente a OAS”. “Esse pedido aconteceu depois do carnaval de 2015.”

Na ocasião, ele disse ainda que “nenhuma outra pessoa diversa de integrantes da família Lula, ou do próprio casal presidencial, não frequenta ou frequentou a unidade 164-A”.
O ex-zelador não soube dizer se o tríplex esteve à venda, mas afirmou que a unidade, “diferente de outras, nunca foi visitada por qualquer pessoa acompanhada de corretor ou corretora de imóveis”.

A investigação deu origem a uma denúncia da Promotoria contra o ex-presidente e seus familiares, que alegam ter adquirido uma cota do empreendimento e vendido depois, sem nunca terem residido no edifício.

A investigação do caso foi encaminhada, posteriormente, ao juiz Sérgio Moro, da Lava Jato, por envolver reformas da empreiteira OAS, envolvida no esquema de corrupção na Petrobrás, no apartamento atribuído ao petista.

Agora, o ex-zelador de um dos edifícios mais polêmicos do Brasil passa a disputar um cargo político no litoral paulista pelo partido que, como revelou a Lava Jato, era o responsável por lotear a Diretoria de Abastecimento da Petrobrás cobrando propinas por meio do ex-diretor da estatal e hoje delator Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef.

Segundo a Procuradoria-Geral da República, o partido teria desviado R$ 357,9 milhões dos cofres públicos da estatal, entre 2006 e 2014 – 161 atos de corrupção em 34 contratos, 123 aditivos contratuais e quatro transações extrajudiciais.

Seu registro de candidatura ainda aguarda para ser aprovado pela Justiça Eleitoral. Na lista de bens declarados por José Afonso consta apenas um terreno no Guarujá no valor de R$ 13,2 mil. Sua coligação é composta por PP, PSC e PEN.

Tendências: