Afinal, estamos em crise econômica ou não?

Afinal, estamos em crise econômica ou não?

Luís Alberto Paiva*

06 de setembro de 2020 | 16h30

Luís Alberto Paiva. FOTO: DIVULGAÇÃO

Essa é uma questão recorrente, e a minha resposta é: depende do setor, depende da sua agilidade? Aquele efeito devastador que a pandemia causou há quatro meses foi coberto pela sensação do fim da crise graças às linhas de crédito estruturadas pelo Governo Federal para a grande maioria das empresas e, também, pelos recursos do auxílio emergencial, que ajudaram nos índices de consumo das famílias.

Somados, são 330 bilhões de reais para o enfrentamento das consequências da pandemia, sendo aproximadamente 200 bilhões em auxílio emergencial, saques de FGTS e BEM (Benefício de Preservação do Emprego), segundo a Caixa, e R$ 45 bilhões direcionados às empresas somando-se os programas estruturados pelo. Um volume inédito.

Os auxílios emergenciais injetaram dinheiro e algum poder de consumo na população, colaborando para que a economia gire. Ainda que não seja algo contínuo, o montante colaborou para que as famílias que se viram desempregadas continuassem ou voltassem a comprar enquanto buscam novas oportunidades de trabalho – que começam a surgir.

Ainda que setores que foram extremamente prejudicados pela Covid19 desde seu início – como companhias aéreas, alimentação, shoppings, turismo, entre outros – continuem a sofrer demasiadamente e a saída da depressão só virá com a vacina, outros superaram a queda e conseguem crescer mesmo dentro da pandemia por conta dessa injeção de capital.

As mudanças de hábitos impostas pela situação transformaram o consumo e ditam novas dinâmicas de mercado. Destaque para a cadeia de materiais de construção, que vem acelerando seu crescimento, e já tem dificuldades em encontrar matérias-primas como PVC, BORRACHAS, PISOS E AZULEJOS, AÇO, COBRE, ZINCO, entre outras. Esse segmento foi impulsionado pela necessidade de ficar em casa, com as pessoas fazendo pequenos reparos ou reformas – o auxílio emergencial impulsionou essa movimentação nas classes mais baixas.

Outros setores que encontraram alívio ou até mesmo bonança após alguns meses de tempestade foram o varejo, principalmente mercados, lojas de rua e e-commerce (como dito antes, shoppings continuam sofrendo com restrições e o receio de lugares fechados), empresas de alimentos e bebidas, logística, tecnologia e internet.

Novos empregos devem surgir para suprir a demanda de abastecimento desses setores e do mercado como um todo. A expectativa é que o índice de mão de obra empregada se eleve em mais ainda fecha com um déficit de 18MM de desempregados.

Um bom indicador para possível retomada de empregos é a volta da confiança e da predisposição para investir da Construção Civil, setor que utiliza grande volume de mão de obra e volta a investir. A Confederação Nacional das Indústrias (CNI) divulgou pesquisa com mais de 450 empresas mostrando que o índice de evolução do número de empregados está subindo e se encontra acima da média histórica.

Como consequência, em uma fase que a produção não consegue acompanhar a demanda, a previsão é que os níveis inflacionários disparem nos próximos meses. 

Com isso, as previsões catastróficas de explosão de recuperações judiciais não se confirmaram.

De acordo com dados da Serasa Experian, o número de pedidos de recuperação do primeiro semestre de 2020 é menor que o mesmo período de 2019 – 601 ações, em 2020, ante 618 do ano anterior.

Em que se pese o grande número de fechamento de negócios em 2020, foram empresas de pequeno e médio porte que preferiram encerrar as atividades a requerer recuperação judicial ou pedir falência. Segundo o IBGE, das 522,6 mil empresas brasileiras que encerraram suas atividades por causa da pandemia, 99,2% eram de pequeno porte (até 49 empregados), 0,78% eram de porte intermediário e somente 0,02% eram de grande porte, com mais de 500 empregados.

Aliás, nesse ponto comento que, desde março, não vi bancos ou grandes credores requerer a falência de empresas – de novo, um sinal de confiança no potencial que o crédito disponível no mercado tem para fazer as companhias se recuperarem. Como dito anteriormente, a cifra já superou 130 bilhões de reais e uma nova rodada destinada a grandes empresas é esperada para setembro.

Resumindo, embora seja uma alternativa eficiente para empresas em dificuldades, não faz sentido pedir recuperação judicial neste momento de crédito abundante. Mesmo os setores mais afetados têm possibilidade de estruturar estratégias financeiras para readequarem suas divididas, sobreviver e seguir em frente.

Aqui, abro parênteses para comentar que a velocidade dos fatos neste ano atropelou todos os debates para mudanças nas leis de falência, recuperação judicial e extrajudicial e afins, suspensão de ações que envolvam discussão ou cumprimento de obrigações vencidas e ações revisionais de contrato, etc.

Mas, vale dizer que a recente aprovação na Câmara dos Deputados da nova Lei de Recuperações Judiciais e Falências é um bom encaminhamento, já que são mudanças necessárias, que já vinham sendo pleiteadas há bastante tempo e tornam os processos menos difíceis e trarão mais segurança ao empresário. Aguardemos o encaminhamento no Senado.

De volta ao cenário atual, o momento exige agilidade para reagir à dinâmica veloz dos acontecimentos, que vão da crise ao crédito abundante em poucas semanas – e as empresas que investirem na elaboração de um plano efetivo de administração, gestão financeira e aumento de produtividade, entre outros pontos principais, se destacarão.

*Luís Alberto Paiva é presidente da Corporate Consulting. É economista pós-Graduado pela Fundação Getúlio Vargas. Há mais de 40 anos atua em Distress Companies, exercendo funções de CFO e CEO de empresas como Lloyds Banking, Grupo Accor, Transbrasil e Opportunity

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