Advogados delataram como escritório foi usado em esquema de propinas a auditores federais e fiscal da Fazenda de São Paulo

Advogados delataram como escritório foi usado em esquema de propinas a auditores federais e fiscal da Fazenda de São Paulo

Delação premiada dos advogados Luiz Carlos da Fonseca Claro e Gabriel Silveira da Fonseca Claro, pai e filho, foi o ponto de partida da Operação Triuno, deflagrada nesta quinta, 22, para investigar supostos crimes de lavagem de dinheiro, sonegação tributária, associação criminosa, embaraço à investigação, corrupção, evasão de divisas e falsidade ideológica

Rayssa Motta, Pepita Ortega e Fausto Macedo

22 de outubro de 2020 | 20h42

Atualizado às 09h08 de 23.10*

Operação Triuno. Foto: Receita Federal

Operação Triuno, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira, 22, teve como ponto de partida informações prestadas pelos advogados Luiz Carlos da Fonseca Claro e Gabriel Silveira da Fonseca Claro, pai e filho, em delação premiada firmada com a Justiça. Eles revelaram aos investigadores como usaram o escritório de advocacia e outras empresas controladas pela família para servir a companhias interessadas em lavar dinheiro.

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A investigação teve início em março de 2018 com uma auditoria na empresa Allied Tecnologia, apontada como uma das clientes do esquema. Inicialmente o inquérito contou com duas etapas ostensivas de buscas em endereços ligados aos investigados: as operações Descarte e a Chiaroescuro. Após as batidas da Polícia Federal, os Claro decidiram fechar os acordos de colaboração premiada.

Segundo as delações, além da Allied, as empresas Qualicorp e Rimo Entertainment foram atendidas pelas operações simuladas de prestação de serviços e fornecimento de produtos mediante a emissão de notas fiscais frias. Para a manutenção do esquema, segundo a Polícia Federal, os advogados mantinham, além do escritório, pelo menos sete empresas ‘noteiras’ usadas nas operações financeiras para ocultar a origem do dinheiro. Em troca dos serviços, cobravam uma ‘comissão’ média de 2,5% calculada a partir dos valores movimentados.

“A competência federal fica cristalina não apenas pela sonegação de tributos federais e posterior lavagem desses recursos, como também pela posterior elaboração e apresentação de documentos falsos à fiscalização fiscal federal para enganar os auditores fiscais da Receita Federal do Brasil, encobrir os crimes antecedentes de sonegação, lavagem e corrupção, como também criar obstáculos às investigações criminais em curso”, diz a Polícia Federal.

Segundo documentos do inquérito, a Allied, controlada pelos empresários Ricardo Radomysler, Marcelo Radomysler e José Milstom Carman Mello, teria repassado R$ 996 mil aos Claro. Por sua vez, a Rimo Entertainment, controlada por José Radomysler, pai de Ricardo e Marcelo, transferiu R$ 1,5 milhão. Do Grupo Qualicorp, que foi dirigido por José Seripieri Filho, os advogados teriam lavado R$ 2,5 milhões.

“Esses valores foram convertidos em dinheiro em espécie, mediante sucessivas transferências para empresas controladas ou relacionadas ao escritório de advocacia até chegar em empresas controladas por doleiros, para pagamento aos três fiscais que, supostamente, não incluíram todos os tributos devidos nas autuações lavradas em razão das mencionadas fiscalizações”, aponta a PF.

Os valores teriam sido usados para viabilizar fraudes fiscais e para pagar os auditores federais Willians Gonçalves Nogueira, Roberto Augusto Ribeiro e Eli Guedes da Silva e o agente de fiscalização de imposto da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo Agostinho Ientile Junior.

Na operação de hoje, os agentes cumpriram cumprem 14 mandados de busca e apreensão: um na cidade do Rio de Janeiro, dez em São Paulo, dois em Barueri e um em Santo André (SP). A PF chegou a requerer buscas e o bloqueio de bens de José Seripieri Júnior, mas a juíza federal Michelle Camini Mickelberg afirmou que inexistem ‘indícios de prova mínimos de sua participação no delito investigado’ e negou os pedidos.

COM A PALAVRA, A QUALICORP
Qualicorp Consultoria e Corretora de Seguros S.A., (B3: QUAL3) (“Companhia” ou “Qualicorp”), vem, nos termos da Instrução CVM n° 358/2002 e da legislação em vigor, comunicar aos seus acionistas e ao mercado em geral que, na manhã de hoje, por determinação da 2a Vara Federal Criminal da Subseção Judiciária de São Paulo, especializada em crimes contra o sistema financeiro nacional e de lavagem e ocultação de bens, direitos e valores, foi realizada, pela Polícia Federal, no âmbito da Operação Triuno, busca e apreensão de documentos, na sede da Companhia e em outros locais. A nova administração da Companhia informa que adotará as medidas necessárias para apuração completa dos fatos, bem como colaborará com as autoridades públicas competentes.

COM A PALAVRA, A ALLIED

A Allied comunica que os fatos mencionados na reportagem são relacionados a contratações de prestadores de serviços realizadas entre 2011 e 2015, com os quais a companhia não mantém mais relacionamento desde 2015. Em meados de 2019, a companhia iniciou uma investigação interna sobre tais fatos com auxílio de assessores especializados e desde então, de forma proativa, se colocou e tem se colocado à disposição do Ministério Público Federal com o propósito de colaborar com as investigações.

COM A PALAVRA, OS DEMAIS CITADOS
A reportagem busca contato com os demais citados. O espaço está aberto para manifestações.

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