Advogados, agente e doleiro são citados em vazamento de delação de Cerveró

Polícia Federal apura origem de documento com revelações do ex-diretor de Internacional da Petrobrás, ligado ao PMDB, que estaria com banqueiro André Esteves e líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (PT-MS), presos na quarta-feira por obstrução à Lava Jato; advogados são principais suspeitos

Andreza Matais, Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

27 Novembro 2015 | 14h48

André Esteves e Delcídio do Amaral. Fotos: Estadão

André Esteves e Delcídio do Amaral. Fotos: Estadão

Atualizado às 19h18
Três advogados do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró, um agente da Polícia Federal e o doleiro Alberto Youssef são citados no vazamento da delação premiada, que foi o estopim da prisão do senador Delcídio do Amaral (PT-MS), líder do governo no Senado, e do banqueiro André Esteves, dono do BTG Pactual, nesta quarta-feira, 25.
A principal suspeita da PF recai sobre três advogados ligados a Cerveró: Edson Ribeiro, que foi preso nesta sexta-feira, 27, e participou da reunião com o filho de Cerveró, Sérgio Riera, que defendeu o ex-diretor e atuou na delação premiada do operador de propinas do PMDB Fernando Baiano, e Alessi Brandão, atual defensora da família.
O agente federal Newton Ishi, os advogados Riera e Alessi e o doleiro tiveram os nomes citados na conversa gravada pelo filho de Cerveró, Bernardo Cerveró, no dia 4, que levou Delcídio e Esteves para a cadeia. Na reunião, o senador, seu assessor Diogo Ferreira, o advogado Edson Ribeiro tentam convencer a família a não fechar acordo de delação com a Lava Jato e oferecem dinheiro e rotas de fuga para o ex-diretor.
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“O que foi vazado a gente acha que pode ter sido vazado ali de dentro, Youssef na cela com ele, uma coisa assim”, diz Bernardo, em um dos trechos da reunião, diante dos questionamentos de Delcídio e do advogado sobre notícias da delação de Cerveró veiculadas na imprensa.“O que eu tenho é o original porque a Alessi me passou e passou pra vocês”, complementa o advogado Edson Ribeiro, que defendia Cerveró desde o início da Lava Jato e foi preso nesta sexta-feira, 27. Alessi Brandão é a atual advogada do ex-diretor, que participou do acordo de delação com a Procuradoria Geral da República.Na gravação entregue por Bernardo à PGR, o advogado Edson Ribeiro e o filho de Cerveró citam nomes de possíveis fontes de vazamento de delação que estaria em poder de Esteves e Delcídio.https://www.youtube.com/watch?v=G9poVt8MXgY“Só pode ter saído do escritório da Alessi, Polícia Federal ou Sérgio Riera. Saber da Alessi se ela passou pro Sérgio alguma coisa com (algo) atrás escrito”, afirma Ribeiro, em outro momento da conversa.O advogado Edson Ribeiro, que também é suspeito de ter vazado o documento, volta a citar o criminalista Sérgio Riera, que foi advogado de Cerveró e atuou na delação premiada do operador de propinas Fernando Baiano – ligado ao ex-diretor e aos esquemas na Diretoria Internacional da Petrobrás.

Senador. Em quase uma hora e meia de conversa gravada por Bernardo Cerveró, o senador insiste em informações sobre o vazamento da delação que estavam em poder de Esteves. “Alguém pegou isso aí e deve ter reproduzido. Agora quem fez isso é que a gente não sabe.”

O advogado Edson Ribeiro afirma: “É o japonês. Se for alguém é o japonês”.

O chefe de gabinete de Delcídio completa: “É o japonês bonzinho”. Ishi é o principal responsável pela Custódia da PF, em Curitiba. Os investigadores acreditam que as imagens das câmeras na carceragem dificultariam o roubo do documento dentro da carceragem

Logo em seguida, Edson Ribeiro coloca sob suspeita outro advogado: “Só quem pode tá passando isso, Sérgio Riera”.

O inquérito para apurar o caso foi aberto nesta quinta-feira, 26, pela PF em Curitiba. Além de Cerveró, os advogados citados também devem ser convocados para prestar esclarecimentos. O documento em poder de Delcídio e Esteves pode não ser a delação premiada assinada por Cerveró com a PGR e sim o documento anterior, que era o esboço usado nas negociações. O termo do ex-diretor ainda não foi homologado pelo STF.

Alessi Brandão informou por meio de seu escritório de advocacia que nenhuma cópia do documento foi fornecida pela defesa.

Riera diz que foi advogado de Cerveró, mas que não tem qualquer relação com o caso.

O advogado de Youssef, o criminalista Antonio Figueiredo Basto, classificou de leviana e improcedente. “Youssef não tem interesse na colaboração de Cerveró. Ele não tinha acesso a essa delação nem tinha como tirar ela da prisão nem copia-la”, afirmou Basto. “É uma afirmação desprovida de qualquer fundamento. Só posso tomar isso como blasona, como tantas que se teve nessa conversa que foi permeada por metidas de todos tipo.”

O advogado de Ribeiro não foi encontrado. O agente da PF não foi encontrado.

LEIA TRÊS TRECHOS DA CONVERSA ENTRE BERNARDO CERVERÓ, O SENADOR DELCÍDIO AMARAL, SEU CHEFE DE GABINTE DIOGO FERREIRA E O ADVOGADO EDSON RIBEIRO

TRECHO 1 (27min)

Delcídio – Pedido de vocês. Quem tem a temperatura das coisas melhor que isso, são vocês. Ele disse não Delcídio, não tem problema nenhum, oh, eu tô interessado, eu preciso resolver isso, oh, o meu banco é enorme se eu tiver problema com o meu banco eu tô fodido, só para te estoriar vai que você não conhece essa estória, oh eu quero ajudar, quero atender o advogado, quero atender a família, ajudo, sou companheiro, pá pá. E a conversa fluiu bem. A única coisa que eu achei estranho foi o seguinte: é no meio da…, por que banqueiro vocês conhecem, vocês sabem como é que banqueiro é foda, né. Ele quer ajuda, ele quer apoio, ele dá apoio, mas ele chora as pitangas e vai criando, onde ele puder enganchar, ele engancha. Ele trouxe um paper, aquele paper.
Edson – Hum!
Delcídio – É, do Nestor. Mas com anotações que suponho tem a ver com as do Nestor. Vocês chegaram a ter acesso algum documento assim?
Edson – Eu não, você viu?
Bernardo – Ele fazia mas ficava com ele na cela.
Delcídio – Pois é, então ou alguém reproduziu isso…
Bernardo – Esse, esse que é o lance… o que foi vazado a gente acha que pode ter sido vazado ali de dentro, Youssef na cela com ele, uma coisa assim.
Delcídio – Por que aí ele complementa.
Bernardo – Mas, não sei.
Delcídio – Ele complementa
Diogo – Até mesmo o que a gente tem, ele vem complementando.
Delcídio – E ele vem complementando. Então vou dar um exemplo.
Edson – Olha só… O que eu tenho é o original porque a Alessi (outra advogada de Cerveró) me passou e passou pra vocês.
Delcídio – Pois é, mas esse, tem anotações a mão.
Edson – Tinha umas anotaçõezinhas do Nestor (…) num tem jeito
Delcídio – Aí… ele pegou. Porque eu não tinha. Não tinha falado nada que eu tinha o documento. Num falei nada. Dentro daquilo que nós combinamos. Num falei porra nenhuma. Aí ele falou olha, Delcidio ta aqui ó. Aí ele pegou e viu lá no (embandeiramento) Você disse que não ia falar. Ai porque eu peguei… dei uma desviada né. Eu sabia há muito tempo…
Bernardo – Mas eu não sei porque tem uma versão que ficou a Alessi. Eu até tenho um e-mail com Edson falando isso, que é a versão que a gente apresentou para os procuradores. São tópicos e tem muita coisa que não vai.
Delcídio – Não mas esse que ele tava é igual a esse do Edson.
Diogo – Era de 44 páginas
Bernardo – Eu falei (…) não vamo tirar. A gente tira.
Edson – … Foi aquele caderno que a Alessi me entregou e eu entreguei pra quem? Pra você ou pro Riera? Pra você…
Bernardo – Pro Riera.
Edson – Direto. Então é o mesmo
Bernardo – Pode ter sido.
Edson – Então quer dizer… Foi esse que foi entregue à Procuradoria?
Bernardo – Não
Edson – Não foi?
Bernardo – Não.
Edson – É menos?
Bernardo – É menos.
Delcídio – Essa tese do Bernardo pode ter acontecido que tiraram de lá da cela.
Bernardo – Sim. Só pode.

TRECHO 2 (43min)

Delcídio – Puta que o pariu, né! Aí, aí eu disse olha você me dá um tempo que eu vou olhar isso, mas ó.. André pô! O advogado do Nestor é um cara sério, um cara que tem tem história, e tal, família do Nestor, eu conheço a família desde… O Bernardo, por exemplo, conheço desde pequeno e foi assim. Mas agora, eu acho que eu já, eu acho que essa tese tua, alguém…
Bernardo – Os caras não tinham uma escuta em cima da.. da cela?
Delcídio – Alguém pegou isso aí e deve ter reproduzido. Agora quem fez isso é que a gente não sabe.
Edson – É o japonês. Se for alguém é o japonês.
Diogo – É o japonês bonzinho.
Delcídio – O japonês bonzinho?
Edson – É. Ele vende as informações para as revistas.
Bernardo – É, é.
Delcídio – É. Aquele cara é o cara da carceragem ele que controla a carceragem.
Bernardo – Sim, sim.
Delcídio – Bom, é para gente deixar é… é…claro as coisas, bom…é, eu fiquei de falar… eu disse a ele que eu fiquei de falar com vocês essa semana, que a gente já tinha…o Diogo já tinha combinado com vocês. Eu to indo amanhã para São Paulo. Vou conversar e já vou combinar um papo nosso lá.
Edson – Tá! O que eu queria que você ouvisse do próprio Bernardo. Com esse acordo, isso foi feito, falado por mim e pelo Bernardo amanhã… ok? Tá certo…
Bernardo – O que?
Edson – De que não haverá ninguém para pedir mais nada pro Delcídio, nem (…)
Bernardo – É, a hora é essa sim porque…
Edson – Valeu?
Bernardo – Os caras deram esse, esse…
Delcídio – Agora a única coisa, Bernardo, sabe que, que é…é que eu fiquei… porque rapaz, eu tava falando com o Diogo. Rapaz! Eu levei um choque, eu cheguei quando o cara vem, ele deixou… ele conversou comigo, mas pera aí que eu quero te mostrar uma coisa…e me aparece com aquele negócio.
Edson – Tudo bem olha só…
Delcídio – Só que aí…
Edson – Poderia ter sido até muito mais.
Delcídio – Ter anotado. [vozes sobrepostas]
Bernardo – É mas…[vozes sobrepostas]
Edson – [vozes sobrepostas] aí não pode ser usado… agora mas isso numa revista.
Delcídio – É uma merda, entendeu? E mexe com a cabeça…
Bernardo – Isso não tá na Época né? [vozes sobrepostas]
Edson – Não, não.
Bernardo – Para você vê né. [vozes sobrepostas] já é outro…parece que já é outra versão..
Delcídio – Deve ser outra versão. E na cabeça deles..pô.. ele…
Edson – Só quem pode tá passando isso, Sérgio Riera
Bernardo – Mas eu já cortei…
Edson – Newton e Youssef.
Delcídio – Quem que é Newton?
Bernardo – É o japonês.
Edson – E o Youssef, só os dois. [vozes sobrepostas] O Sérgio, porque o Sérgio traiu…
Bernardo – Sim. Ele fez o jogo do MP, assinou. Tá..tá
Edson – Fernando
Bernardo – Fernando tá solto, Fernando…
Edson – (…) o Youssef, em cada delação que ele faz ele melhora a situação dele lá dentro.

TRECHOS – 3 (1h26min)

Bernardo – Mas aí como é que os cara sabe?
Edson – Essa porra. Bicho. Olha, só tem traidor pra caralho nessa merda. Que nem eu tenho conhecimento disso.
Bernardo – Mas é aquilo ali que você tem. Num sei se ele tem. É também né. É porque a Alessi ficou trabalhando com ele, né?
Edson – Mas olha só. Só pode ter saído, do escritório da Alessi, Polícia Federal ou Sergio Riera. Saber da Alessi se ela passou pro Sergio alguma coisa com (algo) atrás escrito.
Bernardo – …rapaz chegar na mão do BTG, no André, cara.
Edson – Por que chegou lá?
Bernardo – Porque o Fernando já se queimou com o cara. Já falou dele.
Edson – Quem é que poderia levar isso pro André?
Bernardo – Eu acho que é carcereiro. O cara dá 50 mil ai pra você.
Edson – A gente num entende, pô!
Bernardo – Carcereiro, Newton… os caras são muito legais.
Edson – Mas tem muita informação, cara… … Só tranquilizar ele aí com o negócio do seu pai (…).
Bernardo – Não, e eu dei uma cobrada. Falei. Oh, tá! Tudo bem, tudo bem, mas e aí?