Adote um morto

Adote um morto

José Renato Nalini*

03 de outubro de 2020 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O sistema de adoção é a alternativa para inúmeras situações. O uso recorrente foca a acolhida de crianças desprovida de pais biológicos e carentes de um lar. É um ato de amor, quando consciente. A experiência de quem adota é singular. Quem possui um coração aberto para abrigar outra pessoa, em regra uma criança, não faz distinção entre os possuidores de liames de sangue e aqueles familiares por afeição.

O processo adotivo passou aos poucos a se estender. Para animais abandonados, para praças, para logradouros, para escolas. São Paulo teve entre 2016 e 2018 um interessante projeto de “Adoção Afetiva”, que fez pessoas desvinculadas do ensino se interessarem por escolas e produzirem um resultado muito promissor. Concretizou-se, numa prática singela e informal, a vontade constitucional expressa no artigo 205 da Carta Cidadã: tornar todos, sem exceção, responsáveis pela educação. Direito de todos, mas dever do Estado e da família, com a colaboração da sociedade.

O sucesso da empreitada suscita reflexões e estimula a criatividade. Se pessoas, seres vivos e outras coisas podem ser adotadas, por que não os mortos?

Não se assustem. Não estou falando de assumir zelo e cuidado em relação aos túmulos, muitos dos quais verdadeiras obras de arte e hoje não só abandonados como vandalizados em todos os cemitérios.

Estou falando de adoção de vultos merecedores de figurar na memória coletiva, começando pela memória individual.

Há muitas pessoas desiludidas com os maus exemplos das elites e das cúpulas. O exercício do poder passou a ser um espetáculo de exibicionismo e de egolatria, que leva à construção de falsos ídolos e à entrega temerária do destino de pessoas e de valores a seres humanos sobre os quais costuma pairar pesada dúvida. Os seguidos casos de malfeitos, a falta de compostura e de civilidade, o despreparo e a desqualificação não podem servir de padrão para as gerações que nasceram depois da fase áurea da vida brasileira.

Não existe setor incólume e, ressalvados os excessos, muitas das críticas logo viralizadas nas redes sociais são perfeitamente compreensíveis e não há como concluir que todas elas sejam injustas.

Só que o Brasil já foi muito melhor. Já foi berço natal ou opção de existência de primícias do gênero humano. Em todas as áreas, podemos encontrar paradigmas que sirvam de bússolas morais ou de luzeiros para os millenials e para os nativos digitais.

Por que não mostrar à infância e à juventude pátria essas pessoas esquecidas? Quem estuda a vida desses heróis e compara com o que ocorre hoje, se de um lado pode lamentar, por desacreditar que a humanidade pudesse chegar a tal ponto, de outro reacende a esperança de voltar à era da probidade, da lisura, da modéstia, do serviço anônimo e do compromisso em relação ao aprimoramento do convívio.

Não é preciso eleger apenas os notáveis, as celebridades, as pessoas que adquiriram fama e prestígio social. Há muitas vidas praticamente ocultas, que representam o que de melhor já se produziu na espécie. Vamos ouvir aqueles remanescentes de outras eras, quando o Brasil não era ainda o refúgio da descrença e do deboche. Quando não era vergonhoso admitir coerência, fidelidade a princípios, crença resultante em observância espontânea de obrigações religiosas.

Já houve tempos nesta Terra de Santa Cruz em que verbetes como sacrifício, esforço, coragem, destemor, vontade inabalável tinham sua razão de ser. Quantas vidas podem ter passado despercebidas, mas que, reconstituídas, são lições do que realmente vale a pena para seres frágeis e finitos? O desapego à glória, ao reconhecimento, à contabilidade das relações interesseiras, em que “uma mão lava a outra”, já existiu no Brasil. Foi no tempo em que os contratos eram honrados porque os contratantes nutriam adequada noção de decência. Muito antes da judicialização da vida, que fornece quadro miserável para a avaliação que o mundo civilizado venha a fazer de nós.

Vamos ressuscitar aquelas pessoas com as quais convivemos, hoje no olvido, para demonstrar às crianças e jovens que o Brasil pode ser melhor amanhã, porque um dia já foi melhor. Atribuamos a falta de caráter, a ausência de brio, o recurso à violência, a cultura da vassalagem e da sabujice, a uma fase ignominiosa, mas que vai passar. Ancoremo-nos em Teresa D’Ávila, Doutora da Igreja, que nos auxilia com o seu “Não se atormente. Não desanime. Tudo passa. Só Deus não passa!”.

Deus nos ajude para o hercúleo empenho de reconduzir o Brasil à rota da retidão, da ética, da solidariedade e da fraternidade. Aqueles que nos antecederam provaram que isso é possível. Por que não voltar a esse estágio que hoje mais parece uma utopia?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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