Adoção da computação em nuvem pelo setor público: de tendência à realidade

Adoção da computação em nuvem pelo setor público: de tendência à realidade

Paulo Cunha*

04 de agosto de 2021 | 03h30

Paulo Cunha. FOTO: DIVULGAÇÃO

As tecnologias que transformam o mundo parecem ser inalcançáveis no início. Depois de alguns anos, se for realmente transformadora, se tornará normal. Tão normal que chega a ser entediante. E esse tédio é o maior elogio que um inventor pode receber. Essas são as palavras de Jeff Bezos, fundador da Amazon, na mais recente carta anual que escreve para acionistas da companhia. É isso que eu espero que aconteça com o uso da nuvem por órgãos de todas as esferas governamentais.

Antes da pandemia, a maioria dos governos pensava ou planejava usar a nuvem para se modernizar; um ano depois, a tendência já  virou realidade. Serviços ao cidadão, como cópia de certidão de nascimento ou solicitação de limpeza urbana, agora estão disponíveis no seu celular. As pessoas podem apontar os dados que estão dispostos a compartilhar entre diferentes agências governamentais para obterem serviços customizados. A combinação entre dados e Inteligência Artificial pode levar a um novo nível de personalização. Tanto cidadãos quanto funcionários governamentais passam menos tempo em filas, ou esperando papel carimbado, e dedicam mais tempo às tarefas de maior impacto econômico, aumentando a produtividade do país.

No mundo inteiro temos exemplos de  governos municipais, estaduais e federais que estão atuando como startups, com agilidade para inovar e levar novas tecnologias e serviços aos cidadãos e instituições. Eles também são mais eficientes na coleta e no processamento de dados, permitindo análises de política pública que até então não eram consideradas.

Mas nem tudo são flores. O governo possui informações críticas, que estão sob sua guarda e responsabilidade, e que precisam se proteção em um mundo cada vez mais digital. Hoje, os ataques cibernéticos estão se tornando mais frequentes e, mais do que nunca, é importante investir em prevenção para reduzir os riscos de exposição e vazamentos. Segurança deve ser prioridade em qualquer iniciativa digital para garantir aos cidadãos que seus dados estão seguros.

À medida que passam pela jornada de transformação digital, os governos descobrem que as compras públicas são um desafio. Os modelos de aquisição tradicionais não se adaptam às novas tecnologias, e regras burocráticas tornam-se uma barreira para startups que buscam vender soluções para governos. Naturalmente, estes governos buscam um sistema de compras que ofereça uma melhor experiência ao usuário e facilite a adaptação às novas tecnologias e à inovação, ao mesmo tempo que seja transparente, seguro, equitativo e legalmente robusto.

O caso do Reino Unido é ilustrativo. Há menos de dez anos, o governo britânico revolucionou a maneira de comprar ao instituir um marketplace digital (Digital Market Place) para tecnologias avançadas. Um funcionário de governo, com autoridade e orçamento, poderia facilmente escolher a tecnologia ou o serviço de consultoria tecnológica de acordo com sua necessidade, em um sistema digital que se assemelha a um site de compras online. Se antes o processo de compra durava meses, hoje dura semanas, ou até mesmo dias.

A história de sucesso se centra em Open Procurement, o qual aumenta a transparência, estimula a concorrência e a tomada de decisão de maneira objetiva, tudo isso possibilitado pela infraestrutura em nuvem e por dados abertos. Antes do Digital Marketplace, aproximadamente 80% dos gastos do governo do Reino Unido estavam indo para menos de 18 fornecedores de tecnologia e serviços de TI.

O Digital Marketplace, com sua opção de contratação de serviços de consultoria em TI e facilidade de compra e venda, fez com que pequenas e médias empresas em todo o Reino Unido pudessem concorrer a contratos governamentais. Atualmente, existem 31 mil serviços de nuvem fornecidos por 4.200 fornecedores no Digital Marketplace do Reino Unido (julho de 2019). Mais de 90% de todos os fornecedores são pequenas e médias empresas (PMEs) e, desde 2012, mais de 5.4 bilhões de libras esterlinas de serviços de nuvem e digital foram adquiridos por organismos públicos por meio da G-Cloud. Quase 45% de todas as despesas foram diretamente pagas às PMEs.

Aqui no Brasil, o Serpro, maior empresa estatal de tecnologia da América Latina, está fortalecendo a transformação digital do governo no País, reunindo grandes empresas para parcerias em projetos de computação em  nuvem. Outro exemplo é o Governo do Ceará, que tem liderado iniciativas nesse sentido por meio da Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará (ETICE). O Estado se tornou o maior broker de nuvem pública do Brasil em um projeto pioneiro. Atualmente, a Etice mantém um marketplace com mais de meio bilhão de reais em recursos à disposição, sendo cerca de 200 recursos de nuvem, blockchain, BI de saúde, solução de controle de acesso e ponto eletrônico, entre outros.

Desde a Lei nº 8.666/93, o governo brasileiro tem mecanismos para contratação de produtos e serviços de tecnologia, mas este ano deu um importante passo para se adaptar à nova realidade digital. Com a nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos (Lei nº 14.133/2021), que apesar de ainda estar pendente de regulamentação de pontos importantes, introduziu mecanismos mais modernos e flexíveis para aquisição de bens e serviços em geral, incluindo os de tecnologia e inovação.

Não por acaso, atualmente, 60%  dos serviços de governo são digitais, de acordo com a Secretaria de Governo Digital do Ministério da Economia. Indo mais além, novos serviços que o governo presta aos seus cidadãos, tais como aplicativos para celular como o Conecte SUS – que contempla informações sobre o histórico de saúde do paciente do Sistema Único de Saúde, como carteira de vacinação – já nasceram digitais, desenhados para o cidadão que busca informações pelo smartphone com a mesma naturalidade com que pede um Uber.

Os desafios trazidos pela pandemia mostraram que governos são capazes de se adaptar e mudar rapidamente em prol de seus cidadãos. Vimos mais inovação no setor público nos últimos dez meses do que nos últimos cinco anos – com ainda mais crescimento vindo por aí. É importante ressaltar que, para muitas dessas soluções disruptivas, a nuvem desempenhou um papel fundamental por oferecer agilidade, segurança, escalabilidade, além de democratizar o acesso a tecnologias de alta sofisticação, auxiliando órgãos governamentais a inovar em diversos processos. Apesar de avanços na oferta de novos serviços e facilidades ao cidadão, é fundamental regulamentar de forma célere e adequada os pontos em aberto da nova lei de licitações e contratos públicos se  quisermos tornar essa visão de um governo verdadeiramente digital em realidade.

*Paulo Cunha, gerente-geral de Vendas para Setor Público da Amazon Web Services (AWS) no Brasil

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