Adir Assad diz ter gerado R$ 370 mi para a Delta e cita propina a Cabral

Adir Assad diz ter gerado R$ 370 mi para a Delta e cita propina a Cabral

O operador, alvo da Operação Saqueador, afirmou que o empresário Fernando Cavendish, ex-dono da construtora, mencionou que o recurso iria para o ex-governador do Rio, em reunião realizada entre 2010 e 2011

Mariana Sallowicz e Constança Rezende, do Rio de Janeiro

09 Agosto 2017 | 19h09

Assad durante depoimento à CPI do Cachoeira. Foto: André Dusek/ESTADÃO

O empresário Adir Assad confessou nesta quarta-feira, 9, que lavou dinheiro para empreiteiras, em depoimento na 7ª Vara Federal Criminal do Rio. Foi a primeira vez, em mais de dois anos, que admitiu ter cometido o crime. Preso em Benfica, na zona norte do Rio, na Operação  Saqueador da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, Assad relatou ter gerado R$ 370 milhões em dinheiro vivo para a Delta Construções entre 2008 e 2012. Os recursos foram usados pela empresa fazer caixa dois, afirmou.

+ Propina era levada em malas “tipo lasanha”, entre roupas, papéis e dinheiro, diz operador

O operador tinha uma empresa de entretenimento e produzia contratos fictícios para lavar dinheiro. Ele disse que parte dos recursos foi destinada como propina ao ex-governador do Rio Sérgio Cabral Filho (PMDB). Assad afirmou que o empresário Fernando Cavendish, ex-dono da Delta, relatou os pagamentos a Cabral, em reunião entre 2010 e 2011.

“Cavendish me disse que grande parte desse dinheiro ia para o governo do Estado, para o Sérgio Cabral, e que não poderia atrasar porque era muito importante”. Assad disse, no entanto, que não conversou diretamente com Cabral sobre o assunto.

O empresário disse ainda que a Andrade Gutierrez, outra “cliente” sua, repassou R$ 30 milhões a políticos para “matar” a CPI que investigaria Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira, em 2012. Ele contou que um executivo da empresa lhe contou sobre a propina.

“Este dinheiro foi só o da Andrade. Mas devem ter passado o chapéu também para outras empresas”, disse.

Assad descreveu a tranquilidade dos parlamentares no dia do seu depoimento à CPI, depois de repassada a propina. “Parecia que eu fui lá fazer uma palestra. Os parlamentares com a cabeça baixa, mexendo no celular, para não fazer perguntas. Uma tranquilidade”, contou.

Segundo as investigações, Assad e seu sócio Marcelo Abbud eram os responsáveis por criar as empresas fantasmas que lavavam os recursos, por meio de contratos fictícios. O dinheiro era sacado em espécie, para o pagamento de propina a agentes públicos. O operador está preso há dois anos e meio.

Em um desabado ao juiz Marcelo Bretas, Assad disse que  ser aquele “o momento para falar” do  esquema.

“Agora chegou a hora. O passado a gente não consegue mais mudar, só o futuro. O meu desejo hoje é esse”, afirmou.

Assad confessou que costumava repassar a propina para a Delta em malas que chamou de “lasanha”, nas quais o dinheiro  ia misturado a papéis e roupas, em camadas, como no prato italiano.

Segundo o acusado, que está preso em Benfica, na zona norte do Rio, quatro mulheres ligadas à empresa, duas vezes por semana, buscavam a propina em seu escritório, em São Paulo. Depois, levavam as “lasanhas”, de avião, para o Rio, onde entregavam o dinheiro na sede da Delta. O “recheio” era R$ 150 mil a R$ 170 mil  – uma mala por vez. Os recursos eram sacados diretamente em agências bancárias.

“Nós comprávamos seguros no banco, fechávamos consórcios, oferecíamos para os gerentes ingressos de shows, eventos.”, relatou o empresário, contando como conseguiu sacar altas somas nos bancos. Ele era dono de uma empresa de eventos. Ela produziu shows internacionais no Brasil como os da banda U2, a cantora Beyoncé e Shakira.

Já o empresário Carlinhos Cachoeira, que também prestou depoimento, negou que tenha recebido qualquer dinheiro da Delta. Em respostas breves ao juiz Bretas, Cachoeira disse também que é “totalmente inocente”.  O empresário está em prisão domiciliar. Ele também é acusado de gerar caixa 2 para a Delta.

COM A PALAVRA, A ANDRADE GUTIERREZ

“A Andrade Gutierrez informa que segue colaborando com as investigações em curso dentro do acordo de leniência firmado pela empresa com o Ministério Público Federal e reforça seu compromisso público de esclarecer e corrigir todos os fatos irregulares ocorridos no passado. Além disso, a empresa afirma ainda que continuará realizando auditorias internas no intuito de esclarecer fatos que possam ser do interesse da Justiça e dos órgãos competentes. A Andrade Gutierrez afirma ainda que acredita ser esse o melhor caminho para a construção de uma relação cada vez mais transparente entre os setores público e privado.”

COM A PALAVRA, CABRAL

Procurada, a defesa de Cabral informou que só irá se manifestar após ter acesso ao depoimento.

COM A PALAVRA, DELTA

Por meio de sua assessoria de imprensa, a construtora Delta informou que só vai se manifestar perante a Justiça sobre as afirmações de Assad. A reportagem procurou representantes do empresário Fernando Cavendish, que não tinham se manifestado até o fim da tarde desta quarta-feira (9).

COM A PALAVRA, CAVENDISH

A reportagem procurou representantes do empresário Fernando Cavendish, que não tinham se manifestado até o início da noite de ontem.