Adeus, biodiversidade!

Adeus, biodiversidade!

José Renato Nalini*

20 de março de 2022 | 15h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A Terra já aqueceu 1,1ºC e caminha para o limite de 1,5ºC, a que chegará muito antes dos prognósticos. Isso quer dizer que desaparecerão até 14% das espécies de todos os ecossistemas. Foi mais uma nefasta notícia contida no relatório do IPCC e divulgado no último dia de fevereiro. Como a atenção de todos está na guerra da Ucrânia, essa ameaça não repercutiu o quanto deveria, diante de sua gravidade.

O Brasil foi promissora esperança de sadio consequencialismo no manejo da natureza. Uma potência verde, a deter grande parte da biodiversidade planetária, agia com maturidade, pois provida de gênios talentosos e sensíveis, dos quais Paulo Nogueira Neto era um símbolo. Foi o primeiro Secretário do Meio Ambiente, antes da criação do Ministério. Atuou no relatório Bruntdland, ajudou a elaborar o conceito de sustentabilidade. Semeou SNUCs pelo Brasil, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza criado pela Lei 9.985, de 18.7.2000. Pessoalmente, era um devotado e fiel servidor do ambiente. Mantinha reserva florestal e preservava abelhas sem ferrão, tema de sua especialidade e pós-graduação.

Mas outros brasileiros se destacaram também nessa esfera. Chico Mendes, Marina Silva, a grife verde no Ministério do Meio Ambiente, Fábio Feldman, Aziz Ab’Saber, um pugilo seleto de inteligências fulgurantes.

Eis senão quando, a nação da “Constituição Ecológica” passou a andar de marcha-a-ré. Primeiro, foi o Código Florestal, que desde 1934 protegia nossas matas, revogado por uma lei de 2012 que sequer menciona a palavra “Código Florestal”. Infelizmente, reconhecido pelo STF como compatível com uma ordem constitucional que acolhe o princípio da vedação do retrocesso.

Depois o discurso xenófobo a explorar o tema soberania, sob o pífio e falacioso argumento de que outras nações, que já haviam destruído suas florestas em outros tempos, não teriam legitimidade para demonstrar preocupação com o extermínio da Amazônia.

Mas ninguém pensou se chegasse ao delírio atual de “soltar a boiada”, desestruturar todo o sistema lentamente edificado de tutela ambiental, punir os bons servidores e anistiar criminosos, abrir as reservas indígenas para exploração mineral, a pretexto de incentivar um modelo tupiniquim de mineração amadora, como se isso fosse possível. O mundo sabe que são organizações criminosas poderosíssimas que mantêm toda a cadeia do minério brasileiro. Só o Brasil finge não ver.

Antes mesmo de explorar sua exuberante biodiversidade, que garantiria um futuro exitoso para a economia e para o povo brasileiro, o Brasil elimina o seu amanhã. Nem se dispõe ainda do inventário de tudo o que os vários biomas nacionais – todos eles sob inclemente ataque devastador – guardam como tesouros da biodiversidade. Mas os duzentos e setenta cientistas que se dedicaram à leitura de mais de trinta e quatro mil artigos científicos antes da elaboração de seu relatório, anunciam que os grupos mais ameaçados são os invertebrados e os polinizadores seguidos de anfíbios e plantas com flores.

Não se dispõe de técnica para avaliar o valor dos prejuízos. A extinção de uma espécie é uma perda irreversível. Além disso, desencadeia uma série de impactos aos ecossistemas e aos serviços ambientais, tudo a afetar terrivelmente a saúde humana.

Os cientistas sabem que a vida é uma cadeia formada por elos interdependentes e a ruptura de um deles repercute sobre todos os demais. Pense-se naquilo que já se experimenta hoje: o desaparecimento das abelhas, em virtude do abuso na introdução de herbicidas venenosos que as sacrificam. Isso não significa apenas o desaparecimento do mel, mas também a de inúmeras frutas e outros produtos que dependem das colmeias.

O morticínio já está acontecendo e a ciência sabe disso. Foram avaliadas 976 espécies em diversas regiões e 47% sofreram extinção de populações locais em anos de temperatura recorde. Isso acontece com gravidade maior nas zonas tropicais. A água doce também sofre drástica redução. O Brasil já não é o possuidor de um capital de água doce capaz de abastecer sua população durante décadas. Até o aquífero Guarani já está poluído, assim como os rios, cursos mortos de água fétida e de esgoto, além dos poços artesianos clandestinos, que envenenam lençóis freáticos e colaboram para o desaparecimento de toda espécie de vida sobre a Terra.

Tudo isso ocorre às vistas e ante a omissão criminosa de quem é pago pelo povo para defender seus interesses, dos quais o maior, por óbvio, é continuar a viver.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.