Adaptar-se ou morrer?

Adaptar-se ou morrer?

José Renato Nalini*

07 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

O ser humano é criatura adaptável. Acostuma-se a tudo. Nem por isso, deixa de morrer. A única dentre as características a todos comum, é a finitude. Somos condenados a morrer.

Por isso mesmo, enquanto vivos, nosso dever é participar de um processo lento, às vezes imóvel, outras em evidente retrocesso, do aprimoramento do convívio.

É importante acreditar na perfectibilidade do ser racional. Ele está numa escala evolutiva e em movimento ascensional, na espiral hegeliana. Algo que nos conforta. E é possível concluir, empiricamente, que estamos em situação mais favorável do que nossos antepassados.

Em situações como a presente, em que assistimos a uma degringolada dos valores e parece que a humanidade mergulhou numa era de trevas, pode-se indagar? Vale a pena seguir as regras que nos foram transmitidas? Ou o mundo está a mostrar que não existem mais regras?

É tarefa inglória tentar desvendar os mistérios que nos cercam ou a interpretar os caprichos da natureza humana, o caos do funcionamento estatal e a hegemonia dos mercados.

Dentro da balbúrdia e do dissenso, ainda é possível encontrar espaço viável para o desenvolvimento de projetos modestos, pessoais ou até personalíssimos, dentro de um âmbito doméstico. Vale a pena investir no sonho. Embora o cenário esteja mais para propiciar pesadelos, vamos recuperar os sonhos que um dia nos animaram. Ainda há resquícios deles na nossa consciência. Estenda a mão para a criança que está escondida dentro de você e deixe que ela proponha algo que pode parecer absurdo, mas que talvez valha a pena retomar.

Lembra-se daquela pessoa com quem você conviveu e, de repente, cada qual tomou seu rumo? Não tem saudades de conversar com ela? Pois procure-a. Hoje é até mais fácil fazer essas buscas, pois temos o poderio de Google e outros aplicativos de busca à nossa disposição.

Sabe aquele filme que emocionou quando assistiu décadas atrás? Reveja. Constate se a emoção ainda brota ou se foi uma sensação datada.

E livros que impressionaram quando da leitura? Por que não relê-los?

Seu sonho sempre foi dominar uma língua. Alguns conseguiram. Outros não. Tiveram até disposição para frequentar aulas. Mas não usaram e o que não se usa se perde. Pois tenha coragem e comece a rever essa prática.

Aprender a nadar? A andar de bicicleta? A pintar? A esculpir? A escrever? Por que não começar com as suas memórias infantis. Recuperar, ao menos em relato coloquial, personagens que influenciaram a fase mais feliz da vida de toda pessoa. Aquele estágio dos sonhos, da inocência, da ingenuidade. Muito anterior à podridão que depois a gente vai encontrar. Queira ou não.

Mas estamos falando em adaptação. Conseguimos nos adaptar à pandemia? Como ficou nossa rotina? Estamos desarvorados, irados por não podermos sair, abraçar, beber, se confraternizar? Conseguimos dar conta de nosso trabalho? Houve redução salarial? Quais as perdas enfrentadas?

Poderíamos nem acreditar nisso, mas as coisas mudam. Heráclito já dizia que ninguém consegue se banhar duas vezes nas águas do mesmo rio. Somos outros, as águas são outras. Tudo muda. Nada é estático sobre a Terra.

A mudança nos leva, às vezes numa torrente tão rápida, que sequer nos damos conta dela. Ou podemos nós mesmos fazer mudanças. Aceitar o irremediável, mas com adaptação dos projetos. A única maneira de se adaptar a uma mudança é fazê-la. Só que essa mudança é a de nossa mentalidade. A mais difícil das transformações é a de nossa teimosia. Nossas certezas, nossas crenças inabaláveis, nossos preconceitos, nossas pré-compreensões a respeito de quase tudo. Ou de praticamente tudo.

Para que as pessoas mudem, não bastam estratégias ou sistemas. O núcleo da mudança de comportamento é falar com o coração delas. E começar pelo nosso próprio coração.

Ao menos, consegue-se injetar um pouco de humanismo no homem, aparentemente cada vez mais desumano. Adaptar-se, portanto, sem a ilusão de nos livrar da alternativa. Com a morte não se discute. Ela sempre vence.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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