Acqui-hiring: M&A ou recrutamento?

Acqui-hiring: M&A ou recrutamento?

Renata Homem de Melo*

15 de junho de 2022 | 06h00

Renata Homem de Melo. FOTO: DIVULGAÇÃO

As transações do tipo acqui-hiring estão aumentando no Brasil e estão cada vez mais comuns. Mas o que é uma transação acqui-hiring?

O termo acqui-hiring surgiu da combinação das palavras acquisition e hiring. Portanto, nada mais é do que uma aquisição de pessoas, de talentos, de equipe. O produto ou serviço daquela empresa target não tem relevância ou interesse para o comprador.

Com os investimentos relevantes nas startups nos últimos anos e a cobrança por resultados mais rápidos, passou a ser evidente a falta de pessoas qualificadas, a falta de mão-de-obra, especialmente nas empresas de tecnologia.

Isso está acontecendo porque, na prática, a situação atual é que existem mais vagas disponíveis do setor de tecnologia do que o número de novas pessoas formadas ou capacitadas anualmente. E considerando os investimentos feitos em empresas de tecnologia, esse déficit entre vagas disponíveis e pessoas capacitadas tende a aumentar por enquanto.

Com isso, começa a fazer sentido as transações de M&A no modelo acqui-hiring para efetivar a contratação dos founders e seus colaboradores, sua equipe. Isto porque essas pessoas adquiridas (founders e colaboradores) possuem comprovada capacidade técnica, além de experiência e provavelmente os resultados que uma empresa busca serão obtidos mais rápidos com um time treinado e entrosado do que contratar e desenvolver pessoas internamente.

Apesar deste formato de transação estar em evidência, alguns riscos existem, como, por exemplo, a não permanência na empresa da equipe, dos colaboradores. Isso pode acontecer pela diferença cultural entre empresa adquirida e empresa adquirente. Para o comprador, a melhor forma de evitar esse risco é fazer com que os colaboradores assinem um contrato comprometendo-se a permanecer na empresa e, para tanto, o comprador terá que pagar algo a mais, como um retention bonus ou outros benefícios.

Além desse risco existente, alguns cuidados devem ser observados, a fim de maximizar as chances de sucesso desse tipo de transação:

  • Período de Integração. Em qualquer transação de M&A, o período pós-transação, quando acontece a integração entre empresa adquirida e empresa adquirente, é um dos mais importantes. Em uma transação acqui-hiring esse período de integração é mais importante ainda, pois as pessoas precisam se identificar com a nova organização, a nova cultura.

  • Earn-out. As cláusulas de earn-out (pagamento adicional condicionado a algum evento) são comuns em transações de M&A. Em uma transação acqui-hiring faz sentido também uma cláusula desse tipo para garantir o empenho dos antigos founders no relacionamento, retenção e manutenção dos colaboradores.

  • Estruturação do pagamento ao Vendedor. A forma de pagamento e condições de parcela de earn-out deve ser bem estruturada, a fim de evitar que seja considerada remuneração e não preço de aquisição e o impacto fiscal seja relevante.

  • Due Diligence. Ainda que o objetivo da transação acqui-hiring sejam os founders e os colaboradores em si, a realização de uma boa due diligence é necessária. Com a realização da due diligence, contingências materializadas e/ou ocultas poderão ser identificadas e ajudarão na negociação do preço de aquisição e/ou de garantia.

Percebe-se que as transações acqui-hiring estão sendo uma forma estratégica, relevante e provavelmente mais rápida de recrutamento de profissionais, os quais são difíceis de serem encontrados atualmente, principalmente no setor de tecnologia.

*Renata Homem de Melo é sócia do FAS Advogados na área de Societário e M&A

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