‘Acompanhe/alinhe com MT’ ordenou Odebrecht sobre pagamento assumido por ‘Açogueiro’

‘Acompanhe/alinhe com MT’ ordenou Odebrecht sobre pagamento assumido por ‘Açogueiro’

Acertos para repasses de caixa 2 a partidos aliados do PT, em 2014, cruzam duas maiores delações da Lava Jato, a da Odebrecht e a da J&F

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Luiz Vassallo

21 de junho de 2017 | 05h00

Em 5 de julho de 2014, o empresário e delator Marcelo Odebrecht enviou e-mail para cinco executivos do grupo, entre eles o chefão do setor de propinas Hilberto Mascarenhas da Silva Junior. Na mensagem, cita que o “Açogueiro” teria ficado responsável pelos “37” e que era preciso tomar a seguinte precaução: “acompanhe com o cara para ter certeza que ele sabe que o compromisso não está mais conosco, e que CMF acompanhe/alinhe com MT, até porque deveria haver um tema de SP para nos liberar”.

As siglas do universo cifrado da Odebrecht usado para tratar de propinas e conluios com políticos e agentes públicos do email entregue à Procuradoria-Geral da República (PGR), em dezembro de 2016, remetem ao último capítulo da Operação Lava Jato, que levou o apocalipse político à Brasília, com a delação premiada dos donos do Grupo J&F. As revelações dos irmãos Joesley e Wesley Batista resultaram na Patmos, que encurralou o presidente, Michel Temer (PMDB) e o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG).

O “Açogueiro” da mensagem de Odebrecht seria uma referência aos irmãos Batista, da J&F, controladora do frigorífico JBS. “MT” uma referência a Michel Temer. “CMF” as iniciais de Claudio Mello Filho, lobista da empreiteira em Brasília. E os “37”, o valor de R$ 37 milhões supostamento acertados com o ex-ministro Guido Mantega para repasse a partidos aliados do PT na disputa de reeleição de Dilma Rousseff, em 2014.

acougueiro

No depoimento de Odebrecht do dia 13 de dezembro de 2016, aos procuradores da República Antonio Carlos Welter e Januário Paludo, Odebrecht explicou que recebeu de Mantega, entre maio e junho, meses que antecederam a campanha, um pedido de contribuição adicional de R$ 57 milhões para Dilma, que seriam pagos em contribuições aos partidos da coligação.

O delator detalhou que Mantega pediu R$ 20 milhões, que seriam para o PROS, PDT, PRB e PCdoB. E mais R$ 37 milhões para o PR, PSD e PP.

“No final das contas a gente não conseguiu em tempo… e aí eu fui.. Falei ‘Guido, não deu’. Aí ele fez o seguinte: ‘ó Marcelo, eu já resolvi os 37’. Por isso que está nas minhas notas ‘cancelado’. Então na verdade o PR, PP e o PSD, que eram R$ 37 milhões originais, ele resolveu com outra empresa, ou alguém mais, ele não falou com quem. Então alguém pagou esses R$ 37 milhões”

O delator conta que os R$ 20 milhõoes foram mantidos e pagos, além de um adicional de R$ 5 milhões. “Nessa reunião, além dos 20 originais, ele me pediu mais 5 para o Feira e mais 4 para esse Fábio”. O dinheiro teria sido dividido entre o PROS, o PDT, PRB e PCdoB. “Tudo caixa 2.”

 https://youtu.be/n_8GiGeQNUg
O chefe do Setor de Operações Estruturas – criado em 2006 por Marcelo para cuidar dos pagamentos de propinas do grupo -, copiado no e-mail, deu mais detalhes sobre as siglas e o conteúdo das orientações repassadas pelo diretor-presidente da Odebrecht, e implicou Temer e os irmãos Batista.

“So para ficar claro: ficamos apenas com os 20 iniciais+ 5 adicionais para Feira. E os outros 37 que era para ser conosco (e acho até que havia liberado HS) ficou para o acougueiro?. Nestes 37 tem até o cara que me procurou e LB falou com ele. Eh isto? Se for sugiro que: – LB acompanhe com o cara para ter certeza que ele sabe que o compromisso não está mais conosco, e que CMF acompanhe/alinhe com MT, até porque deveria haver um tema de SP para nos liberar. Marque com seu amigo então 15 ou 16”, registra o e-mail de Marcelo Odebrecht.

“O que é MT?”, perguntou o procurador a Hilberto Silva.

“Quem será MT?”, respondeu em tom irônico, o chefão do setor propinas, ouvido em 15 de dezembro, dois dias depois de Marcelo.

“Aqui está claro. Realmente isso era recurso para o PMDB. ‘Cláudio Melo Filho acompanhe/alinhe com MT’. Deduzo que Michel Temer. Até porque deveria haver um tema de São Paulo para nos liberar. Isso aqui deve ter sido a parcela do PMDB de Michel Temer solicitada para a campanha. Eu coloco tudo isso como uma tentativa de contribuição.”

Segundo Hilberto Silva, Cláudio Melo, que era o lobista da Odebrecht, no Congresso, “era uma pessoa que se relacionava com Michel”. “Michel era amigo do pai de Cláudio, o velho Cláudio Melo.”

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Era 18h01, do dia 5 de julho. A mensagem foi enviada por Marcelo Odebrecht para Alexandrino Alencar, executivo que era o principal canal de ligação entre Emílio Odebrecht e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com cópia para Claudio Mello Filho, o “CMF”, Hilberto Silva, Luiz Bueno, que seria o “LB”, e Benedicto Barbosa da Silva Júnior – todos executivos da empreiteira.

O Ministério Público Federal perguntou quem seria ‘Feira’.

“Feira era o João Santana, representado em todos os momentos de recebimento de recursos pela esposa dele dona Monica Moura”, disse.

PMDB. No conteúdo das delações de Marcelo Odebercht, há um específico que trata do acerto de R$ 10 milhões para o PMDB acertados com o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, e Temer, no Palácio do Jaburu.

Nesse valor, teria sido incluído o pagamento de R$ 6 milhões para a campanha de governador em São Paulo, do presidente da Fiesp, Paulo Skaf.

Segundo relato do delator, o candidato solicitou essa contribuição e depois teria acertado com Temer, que o montante seria descontado dos R$ 10 milhões comprometidos com Padilha, no Jaburu.

Açougueiro. Na delação bomba da J&F, homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no último mês, consta um acerto de R$ 46 milhões para o PMDB, a pedido de Mantega, dentro da conta que a empresa tinha em benefício da campanha de Dilma.

O objetivo seria abafar uma rebelião entre os caciques do partido, que podiam migrar o apoio para o adversário, Aécio Neves (PSDB).

Tanto Joesley Batista como o lobista da L&F em Brasília Ricado Saud afirmaram que avisaram Temer do pagamento e que foi acertado que desse valor, R$ 15 milhões teria sido repassados em benefício do então vice-presidente.

Da mesma forma que Odebrecht diz ter recebido de Mantega pedido de contribuição adicional de R$ 57 milhões para partidos aliados, Joesley Batista diz também que entre maio e junho o ex-ministro entregou a ele uma “lista” com pedido de doações a “partidos e com valores”. (assista aos 36min)

Um dos pedidos era os R$ 46 milhões do PMDB. Havia ainda pagamentos para o PSD, para o PR e para o PCdoB, mesmos partidos aliados que seriam pagos pela Odebrecht.

Os valores saíram da “conta corrente” mantida por ele, em favor de Dilma, e controlada por Mantega – que segundo o delator chegava nessa altura a R$ 100 milhões de gastos.

O PT teve uma dificuldade inicial, porque havia uma grande chance do Aécio ganhar a eleição. E o PT começou a traçar uma estratégia diferente”, contou Saud. Ele confirma ter recebido ordem de Joesley para pagar R$ 35 milhões aos caciques rebelados do PMDB e antes avisar Temer – o que adiciou R$ 15 milhões para o então vice-presidente.

COM A PALAVRA, O PRESIDENTE MICHEL TEMER

O presidente Michel Temer nega todas as acusados de envolvimento com atols ilícitos.

O presidente defende ampla e profunda investigação para apurar todas as denúncias, com a responsabilização dos eventuais envolvidos em quaisquer ilícitos que venham a ser comprovados.

Temer contestou ainda de “forma categórica” qualquer envolvimento de seu nome em negócios escusos. “(o presidente) Nunca atuou em defesa de interesses particulares na Petrobrás, nem defendeu pagamento de valores indevidos a terceiros”, diz o presidente, por meio de assessoria de imprensa do Planalto.

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