Ações verdes: como a sustentabilidade está mudando o mundo dos investimentos

Ações verdes: como a sustentabilidade está mudando o mundo dos investimentos

Tiago Reis*

14 de fevereiro de 2019 | 07h00

Tiago Reis. FOTO: DIVULGAÇÃO

Uma empresa não é mais unicamente uma empresa. Soa confuso? Atualmente, as instituições visam construir uma identidade, engajar o seu público e sempre que possível, se alinham às causas sociais com as quais se identificam. Uma das mais populares é a preservação do meio ambiente. Sob holofotes de ONGs, mídia e até mesmo a própria população, as companhias alteram produtos e posicionamentos. Uma mancha na reputação da companhia pode acabar custando caro.

O exemplo mais recente é do rompimento da barragem em Brumadinho, Minas Gerais. Além do estrago ambiental, a Vale carrega a responsabilidade por desaparecimentos e mortes. Enquanto os números do acidente aumentam, o valor de mercado da empresa cai. Nos três primeiros dias após o desastre, a queda foi de R$ 70 bilhões de reais; o que impactou até mesmo a Ibovespa. A queda da instituição foi a maior perda em um único dia na Bolsa brasileira, superando o rombo da Petrobras em 2018, que perdeu R$ 47 bilhões. Antes, a Vale era a terceira maior empresa na Bolsa; hoje, está na sexta colocação. O rebaixamento também atingiu as notas de crédito da organização. A agência de risco Fitch, reclassificou a corporação de BBB+ para BBB- e avisa investidores: a situação pode piorar ainda mais com a companhia deixando o índice de empresas limpas da B3.

No exterior, a Volkswagen também contabiliza os danos. Apesar de 2019 ter acabado de começar, o chefe da compliance da empresa anunciou, em dezembro, que esse ano será o mais difícil para a empresa. O que acontece agora é um reflexo do deslize de 2015. A instituição usou um software fraudulento que permitiu que até 11 milhões de carros VW, Porsche e Audi entrassem em modo de baixa emissão quando estavam sendo testados em um laboratório. Mas, na verdade, os automóveis continuavam a emitir a poluição de óxido de nitrogênio em condições reais de circulação. O escândalo já custou mais de 20 bilhões de euros.

Nos dias seguintes ao julgamento contra a empresa, as ações da Volkswagen caíram 40%. Claro que existem muitas outras variáveis que determinam o apogeu e declínio de ações. Mas para esse caso, considero interessante ressaltar dois fatores: a credibilidade do negócio e o cenário que a rodeia.

Com este tipo de impacto, não só a imagem da empresa fica abalada, como também a estabilidade que ela transmitia na bolsa, para acionistas, para o setor e até mesmo para as concorrentes. Além dessa bola de neve de má fama, o cenário atual é um panorama que está cada vez mais humanizado e que cobra a mesma postura por parte das das organizações. Ao compreender essa mudança de paradigma, até mesmo as bolsas de valores criaram índices e classificações que reúnem instituições sustentáveis.

Um exemplo é o ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial) e o ICO2 (Índice de Carbono Eficiente) da B3.Tais índices concretizam as demandas de desenvolvimento sustentável e funcionam como ferramentas de análise e comparação. À primeira vista pode parecer que as carteiras ecológicas sejam burocráticas. Com tantas responsabilidades e detalhes ecológicos, o senso comum nos leva a crer que tais empresas não sejam interessantes. Para refutar essa ideia, basta observar a performance da carteira do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE).

Desde a sua criação, em 2005, o índice soma uma valorização de 203,80%, enquanto a Ibovespa acumula 175,38%. Na mesma proporção de que a valorização aumenta, a volatilidade da carteira se mantém baixa. Enquanto a Ibovespa tem 27,04% de oscilações, a carteira contabiliza 24,22%. Essas iniciativas são recentes, mas indiretamente, indicam que futuramente, pode não haver tanto espaço para empresas que colocam o meio ambiente em segundo plano.

Nos próximos anos, temas como “transparência” e “sustentabilidade” podem se tornar cada vez mais recorrentes. Toda modificação traz riscos e oportunidades e se bem administrada, essa mudança de paradigma pode se tornar um diferencial estratégico.

*Tiago Reis, CEO da casa de análise financeira Suno Research

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