Acesso a informações sigilosas iria requerer ‘troca na rotina de trabalho’ da PF, afirma Valeixo

Acesso a informações sigilosas iria requerer ‘troca na rotina de trabalho’ da PF, afirma Valeixo

Em depoimento, ex-diretor-geral afirma que não lhe foi solicitado, 'seja pelo ex-ministro Sérgio Moro ou pelo presidente da República', informações sobre as investigações sigilosas do Supremo

Fausto Macedo, Paulo Roberto Netto, Pepita Ortega/SÃO PAULO e Patrik Camporez/BRASÍLIA

11 de maio de 2020 | 22h27

O ex-diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, relatou que não teve conhecimento de nenhuma informação relacionada ao inquérito das ‘fake news’ do Supremo Tribunal Federal, que está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Segundo Valeixo, o acesso a tais informações, mesmo com a troca de comando da corporação, não seria possível sem ‘uma troca na rotina de trabalho’ da PF.

“Se acaso tentasse esse acesso face o amadurecimento institucional, uma ação como essa seria formalizada nos autos e comunicada, no caso do inquérito das fake news, ao ministro do Supremo Tribunal Federal”, informou Valeixo.

O inquérito é uma das duas investigações sigilosas do Supremo que preocupam o Planalto. Após as revelações de tentativa de ‘interferência política’ de Bolsonaro na Polícia Federal, o ministro Alexandre de Moraes ‘blindou’ os delegados que atuam no caso, evitando que sejam retirados das investigações.

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro. Foto: Dida Sampaio / Estadão

Valeixo explicou que, no caso do inquérito das ‘fake news’, os documentos relativos ao inquérito envolvem tratativas diretas entre a equipe da PF responsável pelas apurações, o chamado Serviço de Inquéritos (SINQ), e o gabinete do ministro do Supremo. Por isso, informações não chegam à direção-geral da PF.

“Nunca foi solicitado ao depoente qualquer informação, seja pelo ex-ministro Sérgio Moro ou pelo presidente da República, sobre o mencionado inquérito”, aponta o depoimento de Valeixo.

O ex-diretor-geral também apontou em depoimento que Bolsonaro sempre pode solicitar relatórios da Polícia Federal ‘quando envolver questões estratégicas, que envolva a tomada de decisões, como, por exemplo, em questões de repercussão nacional’. A explicação segue o que foi informado por Moro, no início do mês, à Polícia Federal.

Relatórios. Em depoimento, o ex-ministro relatou que Bolsonaro já tinha acesso a informações da PF que legalmente poderia consultar e que elas eram englobadas em relatório elaborado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin). O ex-juiz destacou que os documentos não incluíam informações sobre investigações em curso – o que foi reforçado por Valeixo.

“Apesar de envolver informações reservadas, não se trata de matéria envolvendo investigações em curso na Polícia Federal, ou seja, matéria de polícia judiciária”, afirmou o ex-diretor-geral.

Valeixo explicou que Moro recebia informações sobre operações que já foram realizadas pela PF ‘de acordo com aquilo que era disponibilizado pela coordenação daquela investigação’.

“Havia um filtro do que poderia ser divulgado em razão do sigilo aplicado, o que era feito pelos delegados que coordenavam determinada investigação”, afirmou Valeixo.

Um destes casos ocorreu durante a investigação do ‘laranjal do PSL’. Segundo Valeixo, não houve nenhuma transmissão de informações sobre o inquérito até o levantamento do sigilo do caso, ocasião em que foram repassadas informações gerais que não trariam prejuízo às investigações.

Ao ser perguntado se Bolsonaro solicitou diretamente alguma dessas informações diretamente à direção da PF, Valeixo respondeu que não.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.