Acerto de contas

Acerto de contas

José Renato Nalini*

19 de maio de 2022 | 14h00

José Renato Nalini. FOTO: DIVULGAÇÃO

O Brasil nunca foi uma nação em que a fraternidade tenha sido levada a sério. Não se dispõe de registro formal da convivência entre as várias etnias indígenas, aquelas que habitaram incólumes este continental território, mas que – certamente – se guerreavam.

À chegada dos portugueses seguiu-se inclemente eliminação de indígenas, depois a escravidão infame, cujas sequelas até hoje são visíveis. A pregação da cordialidade é mito que já não seduz muita gente. Quando se verifica o armamento incentivado de todas as pessoas, sob argumento de que precisam se defender dos bandidos, já se constata que, para muita gente, esta é uma terra insegura, violenta e desunida.

Mais ainda, é uma terra polarizada. Como justificar a intensa disseminação de leviandades ofensivas, deboches, caricaturas, uma infinidade de mensagens de mau-gosto?

Pior ainda, a sugestão de que retornem “ismos” que a humanidade jurou banir de seu futuro. Anistia significa perdão, mas perdoar não significa esquecer. Impensável a repetição de crimes contra a humanidade perpetrados por pessoas que acreditavam estar defendendo sua pátria do pior. A fase dos comandos carismáticos, tais como os de Hitler, Mussolini, Stalin e líderes menos conhecidos de países africanos, parecia totalmente superada. Como pensar, no século 21, em vontade imperialista de conquistar territórios perdidos – v.g. Ucrânia – em nacionalismo exacerbado, quando o planeta se torna cada dia menor, o ideal de uma nação inteira arregimentada sob fanatismo, a recusa às instituições democráticas?

Entretanto isso transparece numa espécie de desatino que congrega algumas pessoas, cuja intenção é convencer quem não pensa como elas de que está sendo vítima de conspiração. Como observava Umberto Eco, no ensaio “O fascismo eterno”, apesar da derrubada de regimes políticos e da crítica às ideologias fanáticas, “por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis”. É isto o que pode assustar o Brasil. Será que esses instintos e pulsões estavam armazenados e contidos por certo constrangimento, mas foram deflagrados quando encontraram ambiente favorável?

Como explicar a desenvoltura com que se pregam atitudes inteiramente antagônicas ao Cristianismo? Mais grave ainda, que se use argumento religioso para tal insistente pregação?

Para Eco, “os hábitos linguísticos são muitas vezes sintomas importantes de sentimentos não-expressos”. O uso de vocabulário chulo, tosco e rústico, indica sentimentos de que espécie? Qual o seu sentido e alcance?

O projeto de poder nutrido pela intolerância não tem substrato filosófico, senão interesse personalista e narcisista. A noção hegeliana de “Estado ético e absoluto” pode estar no inconsciente, mas o que se dissemina é mera retórica, suficiente para comover iletrados. Invocar apelos emotivos e capazes de empolgar as massas deu certo em inúmeros países, como o fez Mussolini, a citar sempre o nome de Deus em seus discursos e a se atribuir missão transcendental, como o “homem da Providência”.

Uma característica do fanatismo ideológico é a intolerância. Sequer ouvir o argumento contrário. Fulminar o adversário de maneira a calá-lo. Suspender ou boicotar a liberdade de imprensa. Já nos anos noventa, Umberto Eco alertava para os riscos de uma “nebulosa fascista”, com características muito concretas e identificáveis: o culto da tradição, embora o tradicionalismo seja mais velho do que o fascismo; a recusa à modernidade e, portanto, à diversidade. Depois, o banimento à cultura: “a ação é bela em si e, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas”.

Mais intensa ainda, a vedação ao desacordo. Não é possível deixar de rezar a cartilha do fanatismo. Desacordo é traição. A busca do consenso tem exacerbado e natural medo da diferença.

Demonizar quem pensa de forma distinta é uma técnica envolvente da mocidade. Não se deve pensar em luta pela vida, mas a vida é feita para a luta. Por isso é que o pacifismo é conluiar-se com o inimigo. A vida é guerra permanente. Daí a necessidade de se armar a população.

Enquanto isso, a Constituição Cidadã de 1988 prevê a fraternidade como categoria jurídica, a busca de harmonia nas relações internacionais e no âmbito interno. Um pacto federativo de índole essencialmente democrática. Avesso a fundamentalismos e a ideologias totalitárias.

Um dia, a nação acertará as contas com as promessas do constituinte. E tudo aquilo que não faz parte desse projeto será expurgado da História.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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