Bastidores: Acenos políticos de Raquel pesaram na entrega de cargos do grupo da Lava Jato

Bastidores: Acenos políticos de Raquel pesaram na entrega de cargos do grupo da Lava Jato

Pedido de arquivamento de parte da delação do empreiteiro Léo Pinheiro, que citava o irmão do presidente do STF, Dias Toffoli, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, gerou reação em procuradores

Breno Pires e Rafael Moraes Moura/BRASÍLIA

04 de setembro de 2019 | 22h18

Raquel Dodge, procuradora-geral da República. FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

Um dos integrantes da equipe da procuradora-geral Raquel Dodge atuante nos processos da Lava Jato almoçava tranquilamente nesta quarta-feira com colegas e falava até que deveria trabalhar numa eventual transição entre procuradores-gerais. No início da noite, foi um dos seis nomes do grupo a pedir demissão, irresignado com uma “grave incompatibilidade de entendimento dos membros desta equipe com a manifestação enviada pela PGR ao STF”.

Inesperada, a reação surgiu espontaneamente após a descoberta de que Dodge enviou ao Supremo Tribunal Federal na terça-feira, 3, o pedido de homologação da delação premiada de Leo Pinheiro com o arquivamento das partes que traziam implicações ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e a um dos irmãos do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli. O pedido de homologação da delação estava no gabinete dela havia cinco meses. O envio foi feito na véspera de o presidente Jair Bolsonaro indicar o nome para o próximo mandato da PGR.

Esse integrante do grupo da Lava Jato vinculado ao gabinete de Raquel Dodge já tinha decidido não continuar caso ela fosse reconduzida. Considerando que Bolsonaro ainda não indicou o nome e o mandato atual termina no dia 17, o calendário é curto demais para o Senado sabatinar e aprovar a escolha, e por isso é esperado um período de interinidade comandado pelo subprocurador-geral Alcides Martins, vice-presidente do Conselho Nacional do Ministério Público Federal. Esse integrante da PGR trabalharia com o Alcides.

Embora não se cogitasse a deserção, as insatisfações com o posicionamento de Raquel Dodge já existiam, e foram ampliadas por um inesperado pedido de desculpas, feito na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal pelo representante da PGR, por críticas de procuradores da Lava Jato a ministros do Supremo. Na terça-feira, o subprocurador-geral da República Antônio Carlos Bigonha, muito próximo a Dodge, e dizendo falar em nome da PGR, desautorizou a Força-Tarefa da Lava Jato, que na semana passada afirmou não haver previsão legal para a decisão da Segunda Turma do STF que anulou a condenação de Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobrás e do Banco do Brasil, a 11 anos de reclusão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro — sentença do então juiz federal Sérgio Moro.

Sem citar nomes, Bigonha disse que não cabe a procuradores que atuam em primeira instância – como o coordenador da força-tarefa da Lava Jato no Paraná, Deltan Dallagnol – fazer ‘juízo de valor’ sobre julgamentos do Supremo.

“Eu queria deixar registrado em nome da PGR um pedido de formal de desculpas a todos que compõem esse colegiado”, disse Bigonha.

Nos bastidores da Procuradoria, tanto a decisão relacionada à delação de Leo Pinheiro quanto o pedido de desculpa na Segunda Turma foram vistos como gestos políticos da procuradora-geral em busca da recondução à PGR.

Nesta quarta-feira, Raquel Dodge comentou a declaração do chefiado, enquanto chegava para a sessão plenária do Supremo Tribunal Federal. “Dr. Bigonha falou no ofício dele, no momento certo, na hora que lhe competia, e tomei conhecimento”, disse a procuradora-geral, sem o menor sinal de repreensão.

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