Aceleração: em qual lado da moeda você está?

Felipe Senise*

05 de julho de 2020 | 05h00

Felipe Senise. FOTO: DIVULGAÇÃO

A necessidade de combater o novo coronavírus modificou drasticamente a produção científica nos primeiros meses de 2020. Resultados de pesquisa que demoravam cerca de seis meses para serem publicados passaram a ser acessados logo após a sua finalização, enquanto as exigências de qualidade nas publicações caíram. Movimento semelhante vem acontecendo nos negócios e ponderar essa relação é o melhor caminho para tirar lições preciosas para o futuro.

Desde o início da pandemia da covid-19 há um esforço global para entender e controlar o vírus. Mais de 7 mil artigos sobre o assunto surgiram em três meses. Isso é muito rápido se considerarmos que os pesquisadores geralmente levam anos para projetar experimentos, coletar dados, validar hipóteses e cravar resultados.

Como médicos, ministérios e governos precisam recorrer à ciência para tomar decisões imediatas, a velocidade dos resultados se tornou essencial. Os cientistas chineses, por exemplo, publicaram o genoma do Sars-CoV-2 apenas alguns dias após o vírus ter sido isolado, permitindo a criação rápida de testes para detectar infecções em pessoas com sintomas suspeitos.

Por outro lado, as publicações científicas reduziram seus processos normais de revisão e, ainda que tenham reforçado seus times de revisão, os pesquisadores têm buscado outras formas de ter suas pesquisas publicadas. Nos repositórios online¹, chamados servidores de pré-impressão, por exemplo, os documentos podem ser publicados rapidamente, sem passar por revisões profundas.

Um exemplo do efeito colateral gerado por essa demanda de velocidade é o caso da hidroxicloroquina. Seu uso foi estimulado com base em um artigo publicado no International Journal of Antimicrobial Agents, em 20 de março de 2020. O documento agora tem pontos de interrogação sobre seu rigor e confiabilidade. Porém, quando isso começou a ser levantado, a notícia já havia sido propagada de diferentes maneiras.

Mas o fato é, ainda que a aceleração possa provocar uma maior quantidade de erros, é o esforço da ciência, refletido no grande volume de publicações, que nos levará ao sucesso no combate à covid-19. É em meio a esse mar de produção científica que colheremos acertos muito recompensadores.

Nos negócios uma dinâmica semelhante vem acontecendo. As empresas precisaram responder à pandemia de forma tão acelerada quanto à ciência, a fim de se manterem relevantes e atender ao novo comportamento social.

É verdade que o impacto foi gigantesco – segundo o Sebrae², 88% das pequenas empresas declararam queda semanal de faturamento, chegando a ser, em média, 69% menor em relação a uma semana antes da pandemia chegar ao Brasil. Mas alternativas surgiram, como as vendas em e-commerces, que cresceram 48,3%³ em relação ao mesmo período de 2019 (segunda quinzena de março até o fim de abril).

Negócios tradicionais se reinventaram. A rede de loja Marisa, por exemplo, lançou uma plataforma de venda digital que oferece a qualquer pessoa a possibilidade de se tornar um vendedor da empresa. O Magazine Luiza lançou a plataforma “Parceiro Magalu” para estimular a digitalização dos pequenos varejistas. O Carrefour anunciou que já se prepara para trocar sua plataforma de e-commerce visando mais competitividade. Já a BRMalls reforçou seu foco no Delivery Center, plataforma que amplia os canais de venda dos seus lojistas.

Mas a pressão trouxe também atitudes precipitadas. Na maioria das vezes elas estão atreladas à pressa, mas também a uma falta de sensibilidade sobre as exigências dos consumidores e até sociais. De comercialização de máscara com preço abusivo, passando por reposicionamentos incoerentes de políticas de preços, até companhas de marketing oportunistas – há diversos casos nessa linha.

Assim como na ciência, há um balanço a se fazer sobre os processos de aceleração. As empresas vão errar muito no ímpeto de dar respostas rápidas, mas o outro lado da moeda é que não dá para ficar parado e é justamente no meio desse mar de ações e iniciativas que vão surgir as grandes inovações. E essas serão sem dúvida fundamentais às empresas e todo mercado não só agora, mas inclusive depois que tudo passar.

*Felipe Senise, Partner & Head of Strategy na ILUMEO Data Science e Founder na Sandbox Escola de Estratégia

Referências

https://www.economist.com/science-and-technology/2020/05/07/scientific-research-on-the-coronavirus-is-being-released-in-a-torrent

https://m.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/sebraeaz/leia-os-boletins-de-mercado-de-cada-setor-e-atualize-a-sua-empresa,de5f974198962510VgnVCM1000004c00210aRCRD

https://epocanegocios.globo.com/Mercado/noticia/2020/05/epoca-negocios-com-covid-19-e-commerce-ja-e-48-maior-que-no-mesmo-periodo-de-2019.html

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