Ação orquestrada de juízes é um atentado à liberdade de expressão, diz diretor da Gazeta do Povo

Ação orquestrada de juízes é um atentado à liberdade de expressão, diz diretor da Gazeta do Povo

Leonardo Mendes Júnior lamenta iniciativa de vários juízes do Paraná de processar jornalistas do veículo, obrigando-os a comparecer em audiências em diversas regiões do Estado, após divulgarem os supersalários dos magistrados

Mateus Coutinho, enviado especial a Curitiba

08 de junho de 2016 | 04h30

Diretor de Redação da Gazeta do Povo desde outubro do ano passado, Leonardo Mendes Júnior vive um dos momentos mais inusitados do jornal, que vem sendo processado por vários juízes de todo o Estado após uma série de reportagens revelar os supersalários dos magistrados do TJPR. Na prática, repórteres da equipe de política do principal jornal do Estado e até um infografista e um analista de sistemas estão tendo que passar quase todas as semanas viajando para comparecer em audiências de norte a sul do Paraná.

Para Mendes Júnior, falta aos magistrados a sensibilidade para perceber que estão “fazendo de maneira claramente orquestrada é um atentado gravíssimo à liberdade de expressão, à liberdade de imprensa”. Confira na entrevista como o diretor do jornal tem lidado com a situação inédita.

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Leonardo Mendes Júnior, diretor de Redação da Gazeta do Povo. Foto: Divulgação

 

ESTADÃO – Houve alguma pressão no decorrer da apuração das matérias?

LEONARDO: Não porque já temos na nossa rotina a prática de fazer materias dos gastos públicos de todos os poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário. Então entrou como mais uma pauta nessa linha, só que dentro de um momento em que se tinha uma discussão muito grande sobre o teto constitucional, que estava para ser votado na Câmara.

Não teve nenhum tipo de pressão, na verdade os repórteres procuraram tanto o Tribunal de Justiça quanto o MP. O TJ simplesmente não se manifestou, não quis falar na matéria. E já o MP respondeu em dois momentos diferentes com muita tranquilidade explicando todos os pontos colocados pelos repórteres. Então na produção da matéria a gente não teve nenhum tipo de pressão, de problema com eles.

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ESTADÃO – O que mais surpreendeu na reação dos magistrados?

LEONARDO: O que realmente causou mais impacto na gente foi a informação de que imediatamente após a publicação das matérias eles iniciaram uma articulação que caminhava para a expectativa de que naquela semana (de divulgação das matérias) tivesse já quase duzentos juízes e promotores entrando com ações individuais contra o jornal. Nos surpreendeu o volume e já nos chamou atenção para a possibilidade de estar existindo ali alguma ação coordenada, orquestrada.

ESTADÃO – O jornal já passou por situação semelhante?

LEONARDO: Desse porte não. Claro, a gente já teve problema em outros momentos envolvendo o Judiciário mesmo, outros poderes, mas sempre um questão isolada. Agora desse porte, com essa magnitude de você ter tantas ações simultâneas com teor praticamente idêntico, com um modelo de ação, um tribunal que se buscou que obriga os profissionais a irem a todas as audiências e se entrando com as ações num ritmo que foi montando um cronograma de audiências em dias sequenciais, não tivemos nada similar aqui e acho que nem na imprensa brasileira. Estamos em uma questão em que são juízes julgando uma questão que diz respeito a juízes, então eu diria que é algo único.

ESTADÃO – Quais são os próximos passos do jornal nas ações?

LEONARDO: Desde o começo fomos montando uma estratégia para conseguir comparecer a todas as audiências, até porque se um deles ou representante do jornal não estiver presente já gera uma condenação. Tivemos já um primeiro movimento de tentar subir o caso para o Supremo, com base na Constituição, com base no fato de ser a magistratura do Paraná julgando uma questão que diz respeito à magistratura do Paraná. É um caso que, no nosso entendimento, tem sim base jurídica para que suba direto para o Supremo.

Na ocasião, a ministra Rosa Weber entendeu que não, já que não havia uma condenação naquele momento, mas depois houve sim uma primeira condenação e nosso advogado entrou com um agravo para que ela reconsidere essa posição, ou que passe para uma das turmas do Supremo julgar se esse caso realmente deve ser tratado no STF. Entendemos que sim e não estamos sozinhos nessa.

Em uma das ações em que somos réus em Maringá, uma juíza designada para o caso se declarou impedida exatamente com a mesma argumentação que a gente apresentou. Ela argumentou que não se sentiu atingida pela matéria por entender que era algo de interesse público e que estava sendo muito debatido dentro da magistratura e que, por isso, ela se julgava impedida de julgar algo que diz respeito a pares dela, magistrados dentro do mesmo Estado que ela. É exatamente o mesmo entendimento que temos e esperamos que, seja a ministra Rosa Weber em uma reconsideração ou os ministros da Turma que receber esse caso, tenham o mesmo entendimento.

ESTADÃO – Qual a pior consequência disso tudo para vocês?

LEONARDO: A pior consequência é para a equipe né? Na prática eles já estão sendo condenados, cumprindo uma pena de não poder exercer regularmente a profissão, de não poder ter uma rotina normal de vida. Tem semanas ai que eles ficaram três, quatro dias na estrada.Um dos repórteres a mulher está para ganhar filho a qualquer momento e é grande a chance de o filho dele nascer e ele estar em alguma comarca em uma audiência.

O Rogério, outro repórter, tem um filho de dois anos e pouco que nas últimas semanas ele viu só alguns dias. Então tem um custo muito grande diante de uma matéria em que ha um elevadíssimo interesse público, que é a remuneração do Judiciário, Ministério Público, é algo que interessa a população, são funcionários públicos fundamentais, cruciais para a sociedade, interessa para essa sociedade a remuneração deles. A matéria jornalisticamente não tem erro nenhum, todos os dados usados são dos portais da transparência do MP e do TJ, mas infelizmente um grupo de magistrados não teve a sensibilidade de perceber a relevância do tema e também não estão tendo a sensibilidade de perceber que o que eles estão fazendo de maneira claramente orquestrada é um atentado gravíssimo à liberdade de expressão, à liberdade de imprensa.

E aí claro, isso acaba se refletindo aqui dentro no trabalho de todo mundo porque quando o pessoal olha para o lado e vê que esses colegas não estão aqui, eles sabem que esses colegas estão em audiências. Quem fica (na redação) acaba sendo sobrecarregado, são repórteres de política no momento de maior efervescência política talvez da história do Brasil. Então, gera uma cadeia, o prejuízo principal é deles, mas que atinge a todos os colegas e se reflete também no público que acompanha o nosso trabalho, nossa produção jornalistica.

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