Abra sua startup digital

Abra sua startup digital

José Renato Nalini*

23 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A juventude nativa digital tem desenvoltura para o trato com as tecnologias da Quarta Revolução Industrial. Pena que nem tudo no Brasil ainda esteja à altura desse preparo. Mas é possível concretizar o sonho de criar uma startup muito rápida e facilmente. Desde que seja na Estônia!

Esse pequeno país com 1,3 milhão de habitantes, que integrou a ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, dá um show em imersão no mundo digital. Ali se vota pela internet – desconfiar de urna eletrônica, para eles, seria piada surreal! – e seus serviços públicos são acessíveis online e sem burocracia.

Num portal único do governo, é possível que o cidadão encontre respostas para questões como “fiquei doente”, “vou ter um filho”, “vou mudar de casa” ou – para o que interessa aqui – “quero abrir uma empresa”.

São Paulo conta, desde maio, com um espaço para coletar informações biométricas e, em seguida, emite-se um cartão com chip. Ligado ao computador, ele propicia ao portador acessar aos serviços do governo estoniano.

Uma iniciativa pioneira foi abrir a oportunidade, a todos que queiram, de adquirir cidadania digital estoniana. Em maio, segundo o jornalista Filipe Oliveira eram 725 os brasileiros que se inscreveram para essa prerrogativa. Isso permite ao cidadão digital registrar uma startup na Estônia. O Brasil estava na 30ª posição dentre os que se habilitaram a ser estonianos e terem startups naquele pequeno país que faz fronteira com a Rússia e com a Letônia.

Os brasileiros abriram 122 empresas e, junto com os demais cidadãos digitais, são responsáveis por um quinto de todos os novos negócios abertos na Estônia a cada ano.

É muito atrativo o mercado estoniano. A primeira vantagem é a desburocratização, o que anima os brasileiros, sempre às voltas com essa invencível máquina de deixar louco aquele que quer trabalhar e o Estado não deixa. A segunda é a tributação, menos onerosa do que a brasileira, contar com organismos disponíveis que injetam recursos em projetos de inovação, a proximidade do mercado europeu, que fica muito mais acessível na vizinhança da União Europeia, do que neste continente latino-americano.

Quanto à tributação, os 20% recaem apenas na distribuição do lucro aos sócios, não sobre o total do faturamento da empresa. Ali, ao contrário do que acontece aqui, a filosofia é “não matar a empresa no ninho”. Há uma política de estímulo aos inovadores, que não devem temer a espécie de ojeriza que o lucro provoca em certas áreas da vetusta gestão direta estatal.

Tudo é mais informal e a proximidade do empresário com o governo é um fato que estimula principalmente a juventude, adepta de objetividade e singeleza e que não consegue se acostumar com o formalismo – às vezes estéril – do ranço que ainda preside o relacionamento entre o empreendedor e o Estado.

Embora a empresa seja oficialmente estoniana, o proprietário é brasileiro e pode continuar a morar no Brasil, assim como seus empregados. Isso não impede que o governo estoniano invista recursos para o crescimento da startup, promova a divulgação do negócio por outros países europeus e responda às expectativas dos que escolheram o seu país para fazer funcionar uma ideia promissora.

No momento em que o Brasil enfrenta o drama do desemprego de milhões de nacionais, não oferta perspectivas aos que se qualificaram nos cursos superiores mais necessários, como Engenharia, Física, Química, Biologia, Matemática e outros das chamadas ciências duras, é uma chance de se dedicar a uma causa sedutora essa porta de entrada à Estônia.

Não seria difícil que o Brasil propiciasse a seus jovens oportunidades como essa, hoje remotas, o que explica a lamentável fuga de cérebros rumo ao Primeiro Mundo. Os talentosos não encontram aqui o apoio necessário para um empreendimento pioneiro, esbarra-se em vários fatores de obstrução do entusiasmo juvenil.

Aprender com a Estônia seria uma lição de humildade para este gigante que ainda não se livrou do obscurantismo, que milita ferozmente no negacionismo que tem inúmeras tonalidades.

O amanhã é das startups, tangidas por jovens audaciosos e prontos a sacrifícios para a concretização de seus sonhos. Com possibilidade não remota de que a startup se converta num unicórnio, aquela que alcança lucro igual ou superior a um milhão de dólares.

Enquanto o panorama do Brasil patinar na indecisão do 5G, não se leva a conectividade a todas as escolas, não se ministra conhecimento de informática a toda a população, a começar pela infância e mocidade, a Estônia está de braços abertos à procura de brasileiros idealistas.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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