Abismos de ódio

Abismos de ódio

José Renato Nalini*

16 de maio de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Nossa autêntica admiração pelos gregos, que nos legaram a filosofia e a melhor concepção de Democracia, geralmente obscurece uma isenta apreciação de sua História. Não se dedica a devida atenção à sua vocação bélica. Os helênicos guerrearam muito. Quem explorou com intensidade essa condição foi Nietzsche. Para ele, o homem grego tinha um traço de crueldade, de prazer animalesco na destruição. A epopeia homérica é um exemplo emblemático dos abismos de ódio então cultivados.

Quem é que não se recorda de que Aquiles se vingou do inimigo, arrastando pela cidade o cadáver de Heitor? Não foi muito diferente o comportamento dos que, já no século XVIII, esquartejaram o corpo de Joaquim José da Silva Xavier, como pedagógico recado a quem quisesse falar em independência da colônia. Os dias de hoje suscitam a constatação de que há uma dilaceração digital de quem ousa sustentar que a ignorância predomina a estimular o extermínio do nosso maior patrimônio: a natureza verde e a exuberante biodiversidade.

Todavia, os gregos também nos legaram a possibilidade da metamorfose. A crueldade guerreira pode ser sublimada pela competição. Esta viceja em toda a parte: na política, na Justiça, na vida social, na arte. Hesíodo, no poema “As Obras e os Dias”, descreve as duas deusas de Eris, as deusas da inveja e da disputa. São elas que semeiam a discórdia entre os humanos. Os humanos crescem com o espírito de concorrência. Competir é o guerrear contemporâneo. Não se legitimando o ataque cruento, impõe-se o exercício da astúcia. Chegar lá, chegar antes, chegar mais longe do que o adversário.

Todos querem ser o primeiro. A existência converteu-se numa pugna. É surreal verificar o quão impregnadas desse espírito concorrencial ficam pessoas que já alcançaram praticamente todos os êxitos.

Como é que se justifica, por exemplo, a ambição de um Ministro do STJ para se tornar Ministro do STF? Já não foi uma conquista fabulosa chegar ao Tribunal da Cidadania, cuja criação teve o mais saudável objetivo, o de harmonizar a aplicação da lei federal? Por que essa volúpia para deixar o colegiado dos 33 para chegar ao cenáculo dos 11? Quando chegar lá, vai fazer campanha para chegar à Corte de Haia? Não se satisfaz com a substanciosa responsabilidade que já lhe foi conferida, de ser a terceira instância de uma República em que a litigância é o novo hobby nacional?

O que explica a vontade de se sobrepor aos demais, em espaços que deveriam cuidar apenas do intelecto, sem ceder lugar às tolices da vaidade, mas cuja atenção deveria mirar o interior das almas?

Por que o afã de conquistar milhares de adeptos nas redes sociais, no intuito de contar com inúmeros “amigos”, que podem ser deletados com um clique?

Inacreditável o que se faz para ser lembrado, para ser convidado para uma festa, para ser incluído numa relação de contemplados pelo bafejo da sorte, simplesmente porque farão parte de um evento aleatório.

Como justificar a facilidade com que se renunciam a valores como lealdade, franqueza, honorabilidade, para a corrida insana do “salve-se quem puder”, rumo à obtenção das medíocres gloríolas humanas? Abandona-se o ideal da harmonia para a intensificação da discórdia.

As três grandes forças do existir, o Estado, a Religião e a Cultura, registram o fenômeno da competição. Na primeira, a briga é escancarada. Na segunda, mais sutil. Na terceira, que seria de extrema relevância, pois por ela tudo deve acontecer, o desenvolvimento ascensional deveria estar isento de competições, cuja mediocridade é de uma evidência solar.

A cultura é o solo fecundo de onde deveria provir o antídoto à concorrência desleal. Competir para a busca das melhores soluções para um planeta imerso em graves problemas, que precisa – com urgência – relativizar a insensata busca pela riqueza material e debelar a arrogância do armamentismo.

A competição no mundo cultural tem de ser criativa. O mundo não precisa ser a guerra de todos contra todos. Mas no conflito surdo de uma sociedade competitiva, podem surgir flores luminosas, cultivadas pelo gênio da cultura. Para Nietzsche, a cultura precisa do subterrâneo cruel, ela é o belo fim do terrível. A relação necessária entre campo de batalha e obra de arte revela a verdade sobre a cultura.

Se assim é, então o Brasil deveria ser um paradigma da mais estonteante produção cultural da Terra. Pois há uma guerra deflagrada entre ideologias antagônicas, uma guerra de narrativas, uma guerra aterrorizadora entre verdade e mentira. A guerra entre a ciência e a ignorância, entre a afirmação e o negacionismo.

Há relâmpagos a anunciar uma nova fase em que o engenho e arte dos fabricantes da cultura conseguirão iluminar a penumbra dos dias sombrios? Os providos de um mínimo senso humanitário abominam os abismos de ódio que se multiplicam e que brotam entre irmãos, entre amigos, entre membros de um único estamento. Não é este o mundo com que ousamos sonhar um dia.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.