Abertura de escolas: evasão, desigualdade social e prejuízo mental são questões de urgência

Abertura de escolas: evasão, desigualdade social e prejuízo mental são questões de urgência

Danielle H. Admoni*

13 de fevereiro de 2021 | 07h15

Danielle H. Admoni. FOTO: DIVULGAÇÃO

A abertura das escolas públicas e privadas, após quase um ano de portas fechadas, tem sido um dos avanços mais importantes na retomada das atividades interrompidas pela pandemia. Cerca de 15 Estados já deram início às aulas, ainda que à distância neste primeiro momento. A ideia é começar com ensino remoto e, gradativamente, retornar às atividades na escola. Ou seja, estabelecer uma forma híbrida de aulas: parte virtual, parte presencial.

Em controvérsia, a abertura das escolas tem sido também um dos assuntos mais polêmicos. Isso porque há uma parcela de pais e profissionais da educação ainda temerosa com a contaminação pela covid-19, enquanto outro grupo é a favor do retorno às aulas presenciais.

Mas, é perfeitamente possível promover as aulas presenciais, desde que haja medidas e protocolos para um retorno seguro. Além dos impactos negativos da privação prolongada das aulas, como prejuízos à saúde mental dos estudantes e as dificuldades em garantir o aprendizado, há diversas evidências científicas de que crianças e adolescentes se infectam menos, não transmitam a covid-19 da mesma forma que os adultos e que as complicações pela doença nessa faixa etária sejam raras.

Aula presencial é segura? A ciência responde

Pesquisadores da Direção de Saúde da Islândia e da deCODE genetics, empresa de genoma humano de Reykjavik, concluíram que menores de 15 anos tinham cerca de metade da probabilidade dos adultos de serem contaminados e apenas metade da probabilidade dos adultos de transmitirem o novo coronavírus a outras pessoas.

A propagação de uma doença infecciosa nas escolas depende de dois fatores: a frequência de contaminação das crianças e a facilidade de transmissão a outras pessoas. Se as crianças fossem muito suscetíveis e altamente infecciosas, as escolas provavelmente provocariam novos surtos de covid-19, como ocorre em casos de gripe comum. Mas, como as crianças possuem um baixo risco de contaminação e de transmissão, as escolas deveriam simplesmente seguir os protocolos de segurança, como desinfecção de ambientes, distanciamento entre alunos em sala de aula, no transporte escolar, nas áreas comuns, o uso obrigatório de equipamentos de proteção individual e de proteção coletiva e a ventilação de ambientes.

Além desta pesquisa, resultados publicados na revista científica Science mostram que menores de 12 anos estavam menos propensos a contrair a doença do que adultos, após serem expostos ao novo coronavírus, segundo Kaiyuan Sun, coautor do estudo e pesquisador do Centro Internacional Fogarty dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos.

O estudo também verificou que o risco de transmissão dentro de residências, especialmente durante o confinamento, era muito maior do que entre contatos mais casuais, como aqueles das escolas. Outra hipótese acredita que as crianças possuam menos receptores de ECA2, um alvo do novo coronavírus, em suas vias aéreas superiores.

No início da pandemia, o fechamento das escolas tinha fundamento, pois ainda não se sabia como a covid-19 se manifestava entre as crianças. Com o tempo, foi percebido que o papel de crianças e adolescentes na cadeia de infecção e transmissão do Sars-CoV-2 era diferente em relação aos adultos.

Até o final do ano passado no Brasil, entre 0,6% e 0,7% do total de óbitos por covid-19 foram de menores de 20 anos, de acordo com o Departamento de Infectologia da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria). Ou seja, menos de 1% em um grupo que representa mais de 25% da população. Essa constatação é crucial na questão sobre o retorno seguro das aulas. Hoje, mesmo nos países onde existe lockdown, as escolas permanecem abertas.

Os aspectos que mais afetaram os estudantes

– Uso constante de telas
A tecnologia, como ferramenta fundamental para o estudo, desencadeou em muitos um quadro de instabilidade, com exaustão, irritação e ineficiência, principalmente em crianças. No final de 2020, a maioria dos alunos nem queria mais ver telas pela frente e já havia perdido o interesse pelos estudos. Muitos começaram a ter dificuldade de concentração e compreensão, prejudicando o aprendizado.

– Falta dos amigos e da rotina escolar
A fase escolar é fundamental não apenas no quesito educação, mas envolve também a formação da personalidade, de amizades que podem durar uma vida, além de uma rotina agitada por momentos inestimáveis. A brusca interrupção desta rotina escolar, e por tanto tempo, trouxe tristeza, desânimo e saudade, até mesmo das broncas dos professores. A escola é uma das fases mais importantes na vida de qualquer criança e adolescente, e a privação destas experiências traz diversos prejuízos sociais e psicológicos.

– Transtornos de ansiedade
Houve um aumento de cerca de 40% nos quadros de ansiedade, tanto nos pequenos como nos mais velhos. Identificamos muitos alunos que nunca tiveram nenhum tipo de transtorno e passaram a apresentar quadros ansiosos ou até depressivos. Quem já era acometido por algum transtorno, teve uma piora significativa.

– Desigualdade social
Com a pandemia, vimos o aumento da desigualdade social já existente no Brasil. Isso porque 4,9 milhões de estudantes não tiveram acesso ao material didático para continuar os estudos. Segundo dados da Comissão de Educação (CE), 26% dos estudantes da rede pública não têm acesso à internet. Em outubro de 2020, o levantamento do Pnad Covid mostrou que 4,9 milhões de crianças e adolescentes não recebiam as atividades remotas.

Os alunos de baixa renda não têm as mesmas condições de um estudante de classe média, que tem um espaço em casa, com computador, notebook e celular. Para aqueles com menos recursos, se torna inviável ter aulas online, sendo que muitos sequer têm computador e internet. Se já não bastasse, as próprias escolas públicas não tiveram oportunidades de realizar um planejamento adequado para as aulas à distância.

– Evasão escolar
Segundo pesquisa Datafolha, 4 milhões de estudantes brasileiros, com idades entre 6 e 34 anos, abandonaram os estudos no ano passado. Com isso, a taxa de evasão escolar chegou a 8,4% em 2020. A questão foi percebida principalmente em classes de baixa renda. Crianças e adolescentes ficavam na rua, expostos à violência e à criminalidade. Outra situação preocupante é a falta da merenda escolar, já que muitos não têm essa alimentação em casa e dependem da comida na escola. De fato, a evasão escolar é uma urgência, assim como outros pontos citados. Daí a importância destes alunos retomarem o seu direito de frequentar a escola.

*Danielle H. Admoni, psiquiatra da Infância e Adolescência na Escola Paulista de Medicina UNIFESP e especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria)

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