Abaixo os gurus. Vivam os guris

Flavio Tavares*

04 de novembro de 2021 | 02h00

Imagine que você está andando por uma rua e, de repente, tropeça em uma lâmpada, daquelas antigas, estilo Aladin. Você fica curioso e, ao passar as mãos nela, percebe que dali sai um gênio. Ele lhe dá a oportunidade de realizar um único desejo, apenas um, sem segunda chance.

Só que este desejo é cercado por uma condição: o pedido tem que ser algo que você queira saber fazer. Uns poderiam pedir para aprender inglês, outros para terem inteligência emocional, outros para conseguir liderar. E você, o que pediria?

Temos, ao longo dos tempos, olhado a educação como algo formatado, que acontece em algumas fases da vida, principalmente durante nossa infância e juventude. Na fase adulta, temos tantos afazeres com o trabalho, família, filhos, lazer e outras atividades que dedicamos uma parte menor do tempo para estudar. Mas será que essa é a verdadeira educação? Tenho a impressão que passamos tanto tempo buscando adquirir conhecimento que nos esquecemos de desenvolver aprendizados.

O conceito de LifeLong Learning evidencia que o verdadeiro aprendizado é a própria vida. Tem uma metodologia de ensino que foi criada em 1990, chamada de 70:20:10, desenvolvida por Morgan McCall, Robert Eichinger e Michael Lombardo. Os autores defendem que só 10% do aprendizado é obtido por meio de cursos, 20% de interações com outras pessoas e os demais 70% a partir de experiências pessoais. Veja, se eles estiverem certos, erramos demais na estruturação da educação tradicional, que se apóia quase que integralmente no conhecimento.

Se  olharmos com atenção para a nossa história, iremos perceber que faz muito sentido o que eles defendem. O maior aprendizado que temos é quando nos lançamos, nos arriscamos, tentamos e provamos. É quando vivemos experiências, nos movendo em busca de nossas respostas, que realmente somos capazes de aprender, descobrir e fazer.

Portanto, a maior fonte inesgotável de aprendizado é a própria vida. É ela que nos faz ser diferente dia após dia, capaz de produzir ensinamentos que levamos para nossos filhos e netos. Então, a grande pergunta não é sobre qual aprendizado estamos tendo e sim, que tipo de vida estamos criando como fonte de ensinamentos.

Estamos vivendo a era dos Gurus da internet, de acordar às 04h59 da manhã para aprender os três passos da felicidade, de como ficar rico,  ou sobre as cinco regras da vida plena, da abundância e da prosperidade. Estes gurus lembram religiosos pentecostais que vendiam um pedaço do céu aqui na terra em troca de sua obediência e dinheiro. Agora, transformamos a oferta e o dízimo em venda de cursos e mentorias.

O grande problema quando traduzimos este movimento de frenesi emocional criado dentro dessa “bolha” é que colocamos a palavra educação no mais baixo conceito. A educação vem do latim educare, educere, que significa literalmente “conduzir para fora”. O termo é composto pela união do prefixo ex, que significa “fora”, e ducere, que quer dizer “conduzir”. A verdadeira educação na raiz, na sua essência, conduz as pessoas ao movimento, para fora de suas bolhas. Permite que elas saiam da inércia e vivam suas próprias experiências.

Quando eu assumo que o que deu certo para mim é conhecimento suficiente para ensinar você a alcançar seus resultados, eu estou anulando o fato de que só cheguei onde cheguei por causa das minhas únicas, pessoais e intransferíveis experiências de vida. Então, desenvolver um método, criar cinco regras ou três passos, podem servir como baliza, mas nunca como pó mágico, ou como uma lâmpada e um gênio, que realizam seus desejos sem exigir esforço, dedicação e  movimento.

Portanto, temos que nos despertar para a consciência de que o verdadeiro aprendizado é uma busca diária sobre quem estamos nos tornando enquanto caminhamos. É aprender todos os dias um pouco mais, e buscar quase que diariamente viver ou fazer algo que nunca fizemos, nos arriscar, nos mover e nunca aceitar a inércia ou a cadeira confortável com um celular na mão e 20 gurus como referência de aprendizado.

Walter Longo e eu temos defendido que chegou a hora de conclamarmos o seguinte: “Abaixo os Gurus. Vivam os Guris”. Se é sobre a vida que temos que aprender, ninguém melhor do que nossos guris para nos ensinar. Ninguém melhor do que as crianças que não se limitam em seus movimentos, que não têm medo de arriscar, que não se furtam ao direito de celebrar e criar. Que vivem intensamente o dia como se aquele fosse seu último. Que amam a música, a dança, as artes, as brincadeiras mais simples, que não gastam energia tentando provar seu valor e ou buscando se tornar aquilo que não são.

Os guris amam, choram, são vulneráveis, sentem medo, dor, frustração e não as escondem porque nunca ninguém disse a eles que precisam ser super heróis. Nesta vida, ninguém me ensina mais do que meus filhos, Rique, Teteo, Lucca e Piero.

São eles que resgatam minha humanidade todos os dias, são eles que me lembram que sou todos os dias bombardeado por algoritmos que tentam me transformar em robô, são eles que nunca desistem de sonhar e todas as noites inventam histórias comigo antes de dormir, que me pedem pra cantar mesmo sendo o pior cantor do mundo, e quando faço isso, sabe como me sinto? Como um Frank Sinatra cantando no Carnegie Hall, mas só estamos ali, meus guris e eu, na plateia que me ensina a nunca desistir de quem sou, dos meus valores e das histórias que espero construir para eles ao longo da jornada.

Por isso que a vida é sobre o quanto me torno mais humano todos os dias, o quanto aprendo sobre coração, alma, vulnerabilidade, sobre a coragem de ser quem sou e, de lutar pelo que acredito.

Certa vez, perguntaram para Sócrates: “Suas palavras são tão sábias e profundas, geram tanta transformação quando as ouvimos. Será que não mudaremos o mundo se fizermos todos ouví-las”? O filósofo respondeu: “Veja, minha mãe é parteira e já deve ter feito mais de 2.000 partos, mas tem uma coisa que nunca vi minha mãe fazer, que é dar a luz a uma mulher que não estivesse grávida”. Bob Dylan também foi enfático: “Na vida, ou você está ocupado nascendo, ou está ocupado morrendo”. E você, está ocupado engravidando das experiências e a vida que vai viver, ou tem deixado a vida passar como um sopro?

Aprender com a vida, é não desperdiçar cada segundo da vida que você tem. Abaixo os Gurus. Vivam os Guris. Viva aprendendo e aprenda a viver, pois você só tem esta vida para isso.

*Flávio Tavares é CEO da Upper ADucation, fundador do Welcome Tomorrow e palestrante

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