A volta dos velhos

A volta dos velhos

José Renato Nalini*

03 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Em certos períodos da História, os jovens reinventam a roda e querem acabar com a velharia. Isso teria acontecido na China, quando o fervor revolucionário na década de sessenta quiz exterminar os “quatro velhos”: as velhas ideias, a velha cultura, os velhos costumes e os velhos hábitos.

Mas a China é uma civilização antiga. Acumulou sabedoria milenar. Redescobriu Confúcio, que nasceu há 2.572 anos. Viveu entre 551-479 a.C. Chegou à posteridade com “Os Analectos”, mensagem exposta de forma simples e clara. Os ocidentais chegaram a criticar essa obra monumental, acusando-a de ser singela e superficial. Mas ela é a segunda versão da compilação de Zhu Xi, chamada de “Comentários reunidos aos quatro livros”: “O Grande Aprendizado”, “Os Analectos”, “Mêncio”, e “A doutrina do meio”. É a síntese do confucionismo, destinada a preparar o indivíduo na rota de se converter em sábio e poder, nessa condição, governar a sociedade.

É um texto seminal da cultura chinesa, ao lado do “Clássico do Caminho da Virtude”, ambos compilados há 2.500 anos. Impregnaram de tal forma a vida dos chineses, que mesmo os que nunca os leram conhecem o seu conteúdo. Quem se detiver na leitura deles, penetrará na cultura chinesa e perceberá por que motivo eles conferem tamanha importância a valores familiares, autoridade e hierarquia, respeito ao estudo e apego aos símbolos de poder.

Quem quer entender a China – e isso é missão para toda pessoa sensata, que não pode ignorar a crescente importância daquela imensa Nação – precisa ler “Os Analectos”. A China está no centro da vida econômica do planeta e é líder na Quarta Revolução Industrial. A leitura propicia melhor compreensão sobre a liderança chinesa e entendimento quanto à motivação desse povo. Será possível assimilar a cultura pela qual, para os chineses, chegar ao sucesso passa pelo Estado e o caminho da felicidade está na família e no consenso. Não cabe qualquer revolta do indivíduo contra a sociedade. Esta é a comunhão dos seres racionais, na senda à procura da consecução de uma felicidade comum.

Diversamente do que ocorre com a cultura ocidental contemporânea, os Analectos são compilações de máximas e ditos sapienciais. Integram o gênero literário que se resolveu denominar “registro das tradições orais”, coleta – pelos discípulos – de palavras dos mestres. No primeiro rolo, está “A Porta para o caminho”. É o modelo de cultivo moral de Confúcio, para quem não existe contradição entre moralidade individual e política. É exatamente o inverso: o desempenho de funções públicas é a culminância de um processo de aprimoramento ético que passa tanto pela instrução formal, quanto pela convivência dom pessoas de ideais comuns.

Encontra-se nele, por exemplo: “O Mestre disse: “Aprender algo e depois poder praticá-lo com regularidade, isso não é um contentamento? Se amigos vêm de lugares distantes, isso também não é uma alegria? Se as pessoas não reconhecem (meu valor), e eu, apesar disso, não sinto rancor, isso também não é (característica) do Homem Nobre?”.

Para os chineses, Confúcio é um pensador, estadista e educador. Suas três dimensões – filosofia, política e educação – unem-se em torno a um tema fundamental: a Educação. Não significa amealhar informações e encher a cabeça com elas. É o percurso de um caminho, um método que se propõe resolver, simultaneamente, problemas morais, éticos e sociais. Com isso, obter a harmonia em sociedade.

Sábia a atitude do governo chinês atual: resgatar os valores confucianos, para revigorar a sua concepção de mando político. Para Confúcio, o principal propósito de um governante é assegurar que o povo confie nele. Quando o povo não confia, é legítima sua deposição pela população insatisfeita.

Confúcio também pregava a devoção aos mais idosos e o respeito à hierarquia e à autoridade. Tudo aquilo que foi banido durante a revolução entre 1966 e 1976, voltou aos poucos na década de 80, ganhou força em 90 e atingiu seu ápice já no 2000. Em 2013, Xi Jinping visitou Qufu, berço natal de Confúcio. Em 2014, participou formalmente de uma celebração do 2.565º aniversário de nascimento do filósofo.

O governo chinês criou 541 centros de cultura chinesa, distribuindo-os por 162 países, batizando-os de Instituto Confúcio. Eles difundem a China, ensinam mandarim, apoiam iniciativas locais, como pude testemunhar entre 2016 e 2018, quando à frente da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. A Cônsul-Geral Chen Peijie, pós-doutora em Direito Constitucional, foi parceira fervorosa das iniciativas destinadas à criação de um sentido de pertencimento do alunado da escola pública.

A China é uma potência em tecnologia, predestinada a superar as hegemonias que tiveram percalços decorrentes de más escolhas. É preciso conhecê-la melhor, para desenvolver um convívio fraterno de evidentes benefícios para todos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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