A vocação dos brasileiros para o empreendedorismo

Carlos Melles*

30 de outubro de 2020 | 10h30

Carlos Melles. Foto: Divulgação

A vocação dos brasileiros para se aventurar pelo arriscado território do empreendedorismo pode ser comprovada pelo contraste entre dois resultados da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), de 2019. Indagados sobre os sonhos que têm na vida, 37% dos entrevistados no país afirmam que um deles é “ter seu próprio negócio”, opção que ocupa o quarto lugar no ranking de respostas. “Fazer carreira numa empresa” motiva 23% das pessoas, apenas o oitavo lugar na lista de preferências.

Quando me formei em agronomia, no começo dos anos 70, era pouco disseminada essa inclinação pela criação de uma empresa para garantir seu sustento e o de sua família, bem como para dar vazão ao seu propósito de vida.

Agora, nas novas gerações, muitos buscam pavimentar sua rota para o futuro de maneira radicalmente diferente, em particular nos anos recentes, entusiasmados pelo universo desafiador das novas tecnologias digitais, mas também pressionados pela grande dificuldade em encontrar um lugar no mercado de trabalho. Sobre isso, veja o que revela a pesquisa citada. Quase 90% dos empreendedores brasileiros apontaram como motivação para abrir o próprio negócio o seguinte: “Ganhar a vida porque os empregos são escassos”.

Nada demonstra melhor esse espírito desbravador como o sucesso das startups, a vanguarda do empreendedorismo na nossa era. Essas empresas de inovação surpreendem mais uma vez, ao apresentar resultados bastante animadores mesmo durante a crise econômica provocada pela pandemia do coronavírus. O mercado das startups caminha para fazer de 2020 o melhor ano da sua história de uma década, segundo levantamento publicado, recentemente, pelo jornal O Estado de S. Paulo, com base em dados da plataforma Distrito. Já em setembro, o setor havia ultrapassado 80% dos aportes registrados durante todo o ano de 2019 e batido recorde em aquisição de empresas.

O empreendedorismo também dá mostras do seu vigor, neste ano, com as pessoas que estão decidindo sair da informalidade e trabalhar por conta própria em pequenos negócios registrados. O número de novos MEI criados em 2020 superou em quase 43 mil registros do mesmo período de 31 de março a 15 de agosto de 2019 (primeiros 5 meses da pandemia). E cerca de 100 mil novos negócios foram registrados como microempresas e empresas de pequeno porte.

Além disso, até o fim de 2020, perto de 1 em cada 4 pessoas da população adulta brasileira poderá estar envolvida na abertura de um novo negócio ou com uma empresa com até 3,5 anos de atividade. A estimativa é do Sebrae, com base na GEM.

Esse conjunto favorável de indicadores dá ainda mais relevância à Semana Global de Empreendedorismo 2020, evento de envergadura mundial que chega à sua 13ª edição entre os dias 16 e 22 de novembro. Liderada no Brasil pelo Sebrae, a iniciativa visa fortalecer e disseminar a cultura empreendedora, conectando, capacitando e inspirando as pessoas interessadas em trilhar por esse caminho.

O evento promete uma programação vasta. O primeiro momento alto será já na abertura, dia 16, que contará com a participação do presidente da Global Entrepreneurship Network (GEN), Jonathan Ortmans, com a temática “Pandemia e recuperação da economia”. O dia 19 também não fica atrás e marcará as comemorações pelo Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino. O Brasil tem a sétima maior proporção de mulheres entre os empreendedores iniciais aqueles com empresas até 3,5 anos de existência, ainda de acordo com a GEM. As mulheres representam metade dessa categoria. Estão previstas centenas de atividades em todo o país, em conjunto com as instituições da Semana Global: Aliança Empreendedora, Anjos do Brasil, Anprotec, Artemisia, Brasil Júnior, Conaje, Endeavor, Junior Achievement e o Conselho a Rede Mulher Empreendedora – RME.

Olhando-se para o conjunto dos pequenos negócios, deve-se ressalvar, é claro, que a vida é dura para todos. Abrir sua própria empresa não significa sucesso imediato – e muitas vezes pode representar o seu contrário, na verdade. Os obstáculos se mostraram mais difíceis neste ano de pandemia, responsável pela queda brutal no faturamento, fechamento de milhares de empresas e desemprego de tantos trabalhadores, sem falar nas dolorosas perdas de vida causadas pela Covid-19.

Entretanto, neste momento em que se verifica a retomada das atividades nos mais diferentes segmentos, a Semana Global de Empreendedorismo 2020 pode iluminar a busca de alternativas para o Brasil, evidenciando que o fortalecimento dos pequenos negócios é a chave para a virada econômica do país.

*Carlos Melles, Presidente do Sebrae

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