A vingança da natureza

A vingança da natureza

José Renato Nalini*

07 de maio de 2022 | 10h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

O exagerado antropocentrismo tem sido causa de malefícios que não estavam nas previsões dos humanos. Quem não se incomoda com o incêndio provocado na floresta parece esquecer que não são as árvores as únicas vítimas do fogo. As mortes por calor, as doenças respiratórias, as pandemias provocadas por mosquitos, as enfermidades cardiovasculares também são decorrência do maltrato ao ambiente.

A palavra está com os cientistas, sempre atentos, nunca devidamente escutados. A revista Nature publicou estudo realizado por profissionais ingleses, suíços e brasileiros, mostrando que até 76% das mortes ocorridas entre 1991 e 2018, provêm de mudanças climáticas provocadas pelos homens.

O respeitado Professor Paulo Saldiva, membro da Academia Brasileira de Ciências – ABC, diz numa reportagem de Roberta Jansen, que “durante muito tempo, o aquecimento global era um urso polar equilibrado na ponta de um iceberg; se fizermos tudo certo agora, vamos estabilizar o clima nos próximos 40 anos e o primeiro beneficiado será o urso”.

Quase metade da população mundial vive em áreas altamente vulneráveis ao aquecimento. Daí a relação íntima entre as mortes por calor e as mudanças climáticas. Não é necessário formar-se em Ciências numa Universidade para saber que a queima de combustíveis fósseis por indústrias e automóveis gera poluição do ar. Estima-se que sete mil mortes por ano, apenas na capital paulista, derivem da poluição atmosférica.

O desmatamento provoca desertificação. Além do território perdido, o desperdício dos serviços ambientais gratuitos oferecidos pela floresta, que compensa a emissão de gases venenosos, a seca reduz a produção agrícola. Isso já aconteceu no Brasil. Qual foi a perda na colheita de soja no Rio Grande do Sul em 2021?

É o planeta inteiro que está a sofrer com a insanidade da criatura que tem a pretensão de se considerar racional. Na Austrália, o calor extremo aumentou o número de partos prematuros. A Síria passa fome porque sofreu mais de um ano de seca inclemente. Enchentes no Sudão multiplicaram as doenças. No Brasil, o temporal em Petrópolis causou duzentas e trinta e quatro mortes. E um mês depois, houve aumento de casos de leptospirose na região.

Quando se poderia pensar que o interior de São Paulo registraria um fenômeno típico ao deserto do Saara? As tempestades de areia que ocorreram em 2021 e assustaram os moradores de várias cidades, mas que obtiveram explicação dos cientistas climáticos.

O impacto do aquecimento global na saúde humana é evidente e comprovado. Os gases venenosos que provocam o efeito-estufa se concentram na atmosfera e o oxigênio é aquilo que entra incessantemente pelo nariz e também pela boca dos seres vivos. Quanto maior a concentração, mais elevada a temperatura da Terra. Fenômeno que interfere no crescimento de plantas e animais, deixa os mares mais ácidos e com o nível mais elevado, ante o derretimento das capotas polares.

Em 652 cidades, apurou-se que a poluição do ar acelera a mortalidade diária. Pois algumas das partículas menores são continuamente inaladas pelos humanos.

Já está comprovado que as doenças infecciosas aumentam proporcionalmente à elevação da temperatura. Ambiente propício à proliferação de mosquitos que causam malária, dengue e zika multiplica esses criadouros. A consequência é um expressivo aumento da população exposta a doenças letais.

O dendroclasta não mata apenas o verde. Mata seus semelhantes. Pois o fogo extermina o habitat de muitos patógenos e propicia a explosão das doenças emergentes. Para Paulo Saldiva, “a cada dez microgramas por metro cúbico de ar de alta da poluição atmosférica elevamos o risco de câncer em 16%. E nenhuma grande cidade brasileira segue o padrão de qualidade do ar preconizado pela OMS – Organização Mundial da Saúde, que é de cinco microgramas por metro cúbico. Em São Paulo, por exemplo, são 22. No Rio, 18”.

Entre 2000 e 2015, foram 143 milhões de internações de brasileiros associadas às queimadas florestais. Para Antonio Carlos Palandri Chagas, do Instituto do Coração – INCOR, da USP, 50% das mortes estão relacionadas a doenças cardíacas e acidentes cerebrovasculares, decorrentes de problemas ligados à poluição do ar.

Quantas mortes mais serão necessárias para que os criminosos que ateiam fogo à mata se convençam de que não estão matando a natureza, mas exterminando a própria Humanidade?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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