A vida no verbo ouvir

A vida no verbo ouvir

Marcia Bonetti*

30 de julho de 2021 | 05h30

Marcia Bonetti. FOTO: DIVULGAÇÃO

A surdez não limita apenas um dos nossos sentidos; ela pode alterar definitivamente uma vida. A ciência já encontrou relações entre a perda auditiva, a demência e o Alzheimer na população idosa. O problema pode ser também causador de afastamento social e de depressão. Se não for tratado da maneira adequada, pode se transformar em um fardo a se arrastar por toda uma vida.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) estimam que existam cerca de 28 milhões de pessoas no Brasil com surdez. Boa parte desse contingente deixa de procurar ajuda médica por falta de informação, por não aceitar a possibilidade de perda auditiva ou ainda medo de usar um aparelho pelo estigma ou preconceito. Os resultados da falta de tratamento adequado são o agravamento do problema.

Pesquisa do Instituto Locomotiva de 2019, apenas 37% dos mais de 10 milhões de deficientes auditivos do Brasil estão no mercado de trabalho. A Lei Brasileira de Inclusão, ou Estatuto da Pessoa com Deficiência (6 de julho de 2015), estabelece que as empresas devem ter de 2% a 5% do quadro de funcionários ocupados por pessoas com deficiência. Mas segundo levantamento da SignumWeb, startup que promove a comunicação entre empresas e portadores de deficiência auditiva, o mercado de trabalho costuma dar preferência a outros tipos de deficiência por considerar inviável a comunicação com surdos. Preconceito em estado bruto.

Cientistas da Faculdade de Medicina Johns Hopkins, dos Estados Unidos, identificaram a relação entre a surdez e a demência na população idosa. Segundo o estudo, publicado na Archives of Neorology, a cada decibéis de audição perdidos, os riscos de desenvolver a doença aumentam 27%. O levantamento não afirma que a perda da audição é a causa da demência, mas estabelece um vínculo entre os problemas, já que a demência pode surgir em consequência de um esgotamento das capacidades mentais, do isolamento social ou até de uma soma dos dois fatores.

O preconceito e a falta de informação andam de mãos dadas. E atingem duramente aqueles que precisam tanto da informação para não ser privados da audição, mas que ainda são alvos de uma visão míope, de quem acha equivocadamente que a surdez é uma barreira impenetrável.

No site “Crônicas da surdez”, a escritora e palestrante Paula Pfeifer Moreira conta histórias de preconceito que enfrentou e o quanto esse comportamento lhe fazia sofrer. Lembra das mães de ex-namorados que diziam ter pena dela ao detectar o aparelho em suas orelhas, e especificamente de um companheiro que dizia que ela era incrível, apesar da surdez.

Pegue o exemplo de um jovem na casa dos 30 anos que começa a perder a audição e não se conforma por acreditar que surdez “é coisa de velho”. Ele precisa saber que se, aos 30 anos, tem uma perda moderada, ela pode evoluir de forma drástica até uma perda total da audição, principalmente pelo envelhecimento natural do organismo. E que então, quando for idoso, pode não ouvir mais nada. Sem receber o estímulo de forma correta, com o tempo o cérebro começa a perder a capacidade de processar os sons. Assim, o córtex auditivo, responsável por processar as informações e entender esses estímulos sonoros, fica debilitado. Com o tempo, pode deixar definitivamente de decodificar sons. Com a audição severamente danificada, atravessar uma rua, por exemplo, pode se tornar um risco.

Se menosprezada, a surdez afasta a pessoa do convívio social. Na solidão, não é alvo de preconceito, de piadas de mau gosto, de olhares de pena, do constrangimento de ter de pedir para que repitam o que foi dito. Esse isolamento da família e dos amigos pode levar à melancolia, à sensação de incapacidade e até à depressão. Tratado, o problema auditivo pode se transformar em algo menor, resolvido com o processo de adaptação a um simples aparelho e com o acompanhamento constante pelo especialista que iniciou o processo de adaptação. A depender de sua condição, o paciente pode ter a audição de volta em níveis satisfatórios com o uso de um aparelho bem pequeno.

Costumo dizer a pacientes que, compreensivelmente, têm receio de olhares estranhos, que o uso do aparelho é como um tratamento que exige antibiótico para conter uma infecção. Pode ser ruim no começo, mas é a melhor maneira de evitar que se torne um problema mais grave e irreversível. Quanto antes feita a adaptação à tecnologia, que hoje conta com o que há de mais moderno em captação sonora, melhores os resultados obtidos.

Por isso, a qualquer sinal de perda de audição – e ela se revela no volume da TV sempre mais alto que o normal, o pedido constante de repetição da informação, o isolamento repentino e sem motivo aparente, por exemplo – procure ajuda especializada. Se observar esses comportamentos em alguém próximo, converse e tente saber o que está acontecendo. A solução para esse problema e sua assertividade vai variar de acordo com o nível da perda e a agilidade na identificação correta. Em alguns casos, uma pecinha de poucos centímetros pode te devolver a qualidade de vida que você temia que estivesse indo embora de forma irreversível.

*Marcia Bonetti é fonoaudióloga e responsável técnica da Audiba

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