‘A vida já é doce por natureza’, diz aliado de Temer que pegou 10 mil notas de R$ 50 da JBS

‘A vida já é doce por natureza’, diz aliado de Temer que pegou 10 mil notas de R$ 50 da JBS

Joesley Batista, acionista do grupo que mergulhou em uma crise sem precedentes o governo do peemdebista, gravou conversa com deputado Rocha Loures que foi filmado pela Polícia Federal carregando mala com R$ 500 mil em propina viva

Julia Affonso e Luiz Vassallo

25 de maio de 2017 | 05h00

Dep. Rodrigo Rocha Loures
Foto: Janine Moraes / Agencia Camara
11.05.2010

 

Era 13 de março, quando o empresário Joesley Batista, do Grupo JBS, recebeu em sua casa, nos Jardins, em São Paulo, o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), aliado do presidente Michel Temer (PMDB). O encontro ocorreu seis dias depois que o presidente recebeu Joesley no Palácio do Jaburu. O executivo da JBS gravou os dois encontros, o primeiro com Temer, na noite de 7 de março, e o outro com Loures.

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Após ser gravado por Joesley, o parlamentar foi ainda filmado pela Polícia Federal, em 24 de abril, saindo apressado do estacionamento de uma pizzaria em São Paulo carregando uma mala com R$ 500 mil em dinheiro vivo – dez mil notas de R$ 50.

O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), afastou Loures do mandato de deputado.

A conversa com Joesley, em março, durou cerca de 1 hora e 15 minutos. Na casa do empresário, o aliado de Temer filosofou ao tomar um café.

“Tá sem açúcar, o sr quer que eu traga?”, perguntou um funcionário de Joesley.

“Põe açúcar”, recomendou o empresário.

“Não, melhor sem açúcar”, afirmou Loures.

“Sem? É que eu tomo tudo sem”, disse o empresário.

“Eu também tomo tudo. Aqui tá sem açúcar? Eu tomo tudo sem açúcar. A vida já é doce por natureza, né?”, disse o aliado de Temer.

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Custódia. Para o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o deputado Rocha Loures é homem de ‘total confiança’ do presidente Michel Temer, ‘aceita e recebe com naturalidade a oferta de propina’. No início da investigação que culminou com a Operação Patmos, deflagrada no dia 18, Janot requereu ao ministro Edson Fachin, do STF, a prisão preventiva de Loures decorrente do flagrante por crime inafiançável. Fachin negou mandar prender o parlamentar, apenas decretou a suspensão do mandato do amigo de Temer.

Nesta segunda-feira, 22, Janot insistiu na prisão de Rocha Loures. Em recurso ao Supremo, o procurador destcou que Loures aceitou uma propina de 5% sobre o benefício econômico a ser auferido pela JBS ’em troca de interceder a favor do Grupo J&F’ – mais especificamente em favor da EPE Cuiabá, em processo administrativo que tramita no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), órgão antitruste do governo federal.

“Além de parlamentar, (Loures) ocupou um dos cargos mais próximos do atual Presidente da República. Os elementos probatórios veiculados não deixam dúvidas quanto ao trânsito e amplo acesso que o requerido possui em toda a Administração Pública.”, destacou Janot.

O procurador cita os grampos da PF que pegaram negociações do parlamentar. “Vale lembrar que logo num dos primeiros diálogos com um dos colaboradores os temas tratados referem-se a indicações para diversos órgãos e entes públicos com fins ilícito, qual seja, atender os interesses privados do colaborador e seu grupo econômico.”

Janot nomina ‘dentre esses órgãos estão CADE, CVM, Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e Receita Federal’.

“Registre que o tema não foi tratado de forma hipotética, tendo havido inclusive ligações por parte do parlamentar para diversas autoridades como o Presidente em exercício do CADE e o Secretário-Executivo do Ministério da Fazenda. Esses fatos demonstram de forma inconteste como a liberdade do parlamentar pode prejudicar a investigação e colocar em risco os bens jurídicos protegidos.”

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