A vez da economia descentralizada no mundo pós-covid-19

A vez da economia descentralizada no mundo pós-covid-19

Luca Cafici*

14 de agosto de 2020 | 03h30

Luca Cafici. FOTO: DIVULGAÇÃO

Enquanto o Brasil busca conter o avanço do novo coronavírus no país, muitos já começam a se questionar sobre o mundo pós-COVID-19. Imaginar os efeitos que a doença e as medidas de isolamento social causam é um exercício fundamental para se traçarem novos planos e nos prepararmos para o que nos aguarda à frente. Ainda há muitas incertezas, mas é de se esperar que, economicamente, muitas mudanças aconteçam, fazendo com que alguns mercados passem por uma crise e outros tenham a oportunidade para crescerem ainda mais – como é o caso do segmento de carros seminovos e usados.

Não é preciso muito esforço de futurologia para saber que o mundo pós-COVID-19 vai ser totalmente diferente do que o anterior. Até existir uma vacina ou algum remédio que tenha alto nível de eficácia comprovado cientificamente, as pessoas continuarão com medo e evitarão sair de casa. Dessa forma, os níveis de consumo irão se manter em indicadores bem abaixo da média pré-coronavírus. Como resultado desses novos hábitos, a economia vai passar por uma profunda transformação, com muitas indústrias prejudicadas ao mesmo tempo que negócios mais promissores terão maior crescimento.

Como esse novo comportamento provavelmente vai ficar por um bom tempo, muitos tabus vão sendo derrubados e adotados neste novo mundo que nos espera. O trabalho remoto, por exemplo, que era visto com receio por grande parte das organizações, precisou ser adotado às pressas e, atualmente, mais empresas estão abertas a esta experiência. Serviços como telemedicina começaram a crescer, as assinaturas digitais também, principalmente com uma rotina cada vez mais digital. A conscientização com a higiene, por sua vez, traz desafios para a economia compartilhada e afeta, indiretamente, o mercado de veículos seminovos/usados.

Basta ver o que está acontecendo com a China, epicentro da pandemia do novo coronavírus, que, ainda hoje, busca reduzir os impactos da doença no dia a dia da população. Um levantamento da Ipsos, líder global em pesquisas de mercado, mostra que os chineses estão repensando a própria mobilidade. A preferência por um carro particular ao invés do transporte público ou do compartilhamento de carona saltou de 34% para 66%, assumindo o topo da lista de principais meios de transporte. Além disso, 72% deles demonstraram forte intenção de compra de um automóvel nos próximos meses e a principal razão, apontada em 77% das respostas, é reduzir as chances de uma nova infecção.

Por conta disso, o mercado de carros também passará por transformação, com novas tendências. Em primeiro momento, como consequência dessa preocupação com contágio e necessidade de isolamento, a proporção do uso de carros próprios em relação a táxis e aplicativos vai aumentar, o que representa uma demanda maior para a compra de carros. Porém, devido aos impactos econômicos da pandemia, a oferta de veículos novos tende a se reduzir, aumentando os preços mesmo em um contexto de recessão. Em contrapartida, muitas pessoas buscam dinheiro rápido e locadoras com bastante estoque passaram a vender os seminovos, reduzindo os valores neste mercado e aumentando significativamente a demanda.

Se antes a expressão “economia colaborativa” definia o mundo antes da pandemia, agora é preciso rever conceitos. Principalmente no quesito mobilidade, o risco de contágio do novo coronavírus e as medidas mais rigorosas de higiene tendem a promover um mundo mais descentralizado, com os desafios dessa área menos relevantes do que de outras, como saúde. Cabe aos setores com maiores oportunidades, como de compra e venda de veículos seminovos/usados, compreenderem este novo momento e realizarem o melhor planejamento para voltarem a crescer. O mundo pós-COVID-19 tende a ser o da “economia descentralizada”.

*Luca Cafici é CEO e cofundador da InstaCarro

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