‘A venda de um mico’: Cerveró relata pressão de Cunha para a BR comprar Manguinhos

‘A venda de um mico’: Cerveró relata pressão de Cunha para a BR comprar Manguinhos

Ex-diretor da Petrobrás afirmou que em 2013, presidente afastado da Câmara, ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, e senador Edison Lobão, todos do PMDB, pressionaram executivo da estatal para adquirir refinaria, comprada cinco anos antes por grupo ligado a assessor de José Dirceu

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Mateus Coutinho

03 de junho de 2016 | 16h55

Eduardo Cunha. Foto: Wilton Júnior/Estadão

Eduardo Cunha. Foto: Wilton Júnior/Estadão

O presidente afastado da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que pode perder o mandato por receber propinas de contratos de navios-sondas da Petrobrás em contas secretas, tem mais um problema a enfrentar na Operação Lava Jato: sua participação em negócios suspeitos na Refinaria de Manguinhos, no Rio.

Em acordo de delação premiada do ex-diretor da Petrobrás e da BR Distribuidora Nestor Cerveró, ele afirmou que Eduardo Cunha, junto com o ministro de Turismo, Henrique Eduardo Alves e o senador Edison Lobão – todos do PMDB – teriam pressionado em 2013 executivos da BR para comprar a refinaria de Manguinhos.

Cerveró conta ter ouvido, em 2013, do então presidente da BR Distribuidora, José de Lima Andrade Neto, que ele “tinha sido procurado pela segunda vez pelos deputados Eduardo Cunha e Henrique Alves, que estiveram na BR Distribuidora intervindo para que a estatal comprasse a refinaria”.

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“Lima disse também que Edison Lobão também tinha ligado para ele, pressionando no mesmo sentido”, afirma Cerveró, em seu termo de delação número 7. O acordo foi fechado no final de 2015, mas sua íntegra foi tornada pública nesta semana pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

“A compra dessa refinaria não faria sentido para o negócio da BR, mas o Lima mencionou que a pressão de Lobão estava muito forte”, contou Cerveró, como exemplo de “interferência política” que ele sofria no cargo.

Segundo o delator, “o negócio poderia girar em torno de 50 milhões de dólares e, por ser muito favorável ao vendedor, poderia gerar uma propina também muito grande, pois era a venda de um ‘mico'”.

Dirceu. Uma das mais antigas refinarias, Manguinhos foi privatizada em 1998, no governo Fernando Henrique Cardoso. A argentina YPF assumiu seu controle acionário. Um ano depois, a YPF foi comprada pela Repsol, que em Manguinhos dividiu o controle com o Grupo Peixoto de Castro. Envolta em problemas financeiros, a refinaria foi comprada pelo Grupo Andrade Magro, em 2008 – negócio que envolveu um assessor do ex-ministro José Dirceu, o jornalista Marcelo Sereno.

Já investigado no escândalo Waldomiro Diniz, de contratos da Caixa no primeiro ano de governo Luiz Inácio Lula da Silva, e com o nome citado no mensalão, Sereno entrou com sócio da Grandiflorum Participações, holding criada para controladora de Manguinhos, ligada ao grupo Andrade Magro.

Cerveró afirma em sua delação premiada que sabe que Eduardo Cunha e Henrique Alves tinham feito algum negócio com um grupo ligado a Marcelo Sereno, e queriam resolver por intermédio da Petrobrás”.

MANGINHOS

O delator conta que chegaram a iniciar estudos internos para acalmar os políticos do PMDB e que a Lava Jato, deflagrada em março de 2014, frustrou os negócios pedidos pelos três. “Se essa pressão fosse antes da deflagração da operação Lava Jato, com certeza essa pressão seria irresistível, isto é, o negócio se concretizaria. Depois da deflagração da operação, houve um memorando determinando a paralisação
de todos os negócios.”

Cabral. Cerveró relatou ainda que havia problemas relacionados à questão ambiental em Manguinhos, mas disse ter ouvido que Lobão dissera ao então presidente da BR Distribuidora que estava “acertado entre Eduardo Cunha e Sérgio Cabral (ex-governador do Rio) que a licença ambiental sairia”.

COM A PALAVRA, EDUARDO CUNHA

“Segundo o que está escrito, ele não está delatando e sim falando que ouviu dizer, o que é um verdadeiro absurdo. Desminto com veemência o conteúdo, a forma e acuso a irresponsabilidade de “na base do ouvir dizer “, o fuxico virar um fato incluído em delação.”

COM A PALAVRA, O MINISTRO DO TURISMO, HENRIQUE EDUARDO ALVES

Por meio de nota, via assessoria de imprensa, o ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, negou envolvimento no caso.

“Nunca tratei desse assunto em qualquer instância da Administração Pública. Nunca ouvi esse assunto sequer ser tratado por ninguém. Desconheço qualquer assunto igualmente com o sr. Marcelo Sereno. Nunca estive com o deputado Eduardo Cunha na BR Distribuidora.”

COM A PALAVRA, EDISON  LOBÃO

O senador Edison Lobão divulgou nota, por meio de sua defesa.

“A propósito da delação que envolve seu nome, o Senador Edison Lobão nega com veemência qualquer atuação para a compra da Refinaria de Manguinhos. O Senador não tem qualquer tipo de relação com Marcelo Sereno ou Grupo Magro. A defesa do Senador tem reiteradamente alertado sobre a inconsistência em se admitir depoimentos de ‘ouvir dizer’ como elementos de prova para embasar acusações. Em razão disso, a palavra do delator é cada vez mais desacreditada, não apenas diante da fragilidade factual de tais narrativas, mas principalmente porque o próprio delator afirma que não presenciou os fatos que ele próprio aponta.”

 

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