A vacina fora da caixinha

A vacina fora da caixinha

Tatianna Oliva*

15 de dezembro de 2020 | 06h15

Tatianna Oliva. FOTO: DIVULGAÇÃO

Situações inéditas exigem soluções igualmente inéditas. A pandemia do novo coronavírus é algo sem precedente na história da humanidade. Houve, como se sabe, outras pandemias, como a Gripe Espanhola há um século, que matou até mais que a doença que hoje nos aflige. Mas as duas calamidades não se comparam quando observadas pelo lado das soluções que se apresentam. Sem vacina, sem a informação médica, sem a tecnologia hoje disponíveis, os contemporâneos de nossos bisavós não tinham muito o que fazer, a não ser esperar pelo menos pior.

Não é, felizmente, o nosso caso. Temos várias vacinas a caminho desenvolvidas em tempo recorde – daí o ineditismo da situação. Alguns países, como a Grã-Bretanha, já começaram ambiciosos programas de imunização. Outros, como Alemanha e França, estão com tudo engatilhado para romper o ano vacinando largas parcelas da população. Outros ainda, como Brasil, estão comparativamente atrasados, mas aqui também chegará o dia em que estaremos na fila aguardando aquela picada salvadora.

A iniciativa privada, como o estímulo de governos mundo afora, venceu o primeiro desafio ao materializar vacinas razoavelmente seguras e eficientes. Num momento anterior, as empresas também souberam mitigar os efeitos da pandemia ao abrirem generosamente seus cofres para comprar e distribuir máscaras, álcool em gel e demais produtos de higienização.

Vencidas as duas etapas, o terceiro desafio é logístico: fazer chegar a vacina a todos os cidadãos. Mais uma vez, a iniciativa privada pode fazer a diferença. As dificuldades são ainda maiores num país com dimensões continentais como o Brasil. Por isso, defendo que é a hora de, mais uma vez, criarmos uma corrente de solidariedade. Vale pensar em como cada player poderia ajudar com seu know-how nessa missão.

Varejistas com grande capilaridade pelo Brasil afora poderiam por exemplo usar a rede de lojas físicas como pontos de distribuição, que ajudariam a aliviar postos de saúde sobrecarregados. Voluntários poderiam ajudar a ministrar as doses. Um esquema parecido funcionou nas Olimpíadas de 2016. Neste caso, os voluntários poderiam ser escolhidos entre estudantes das faculdades de medicina públicas e particulares.

Empresas cujos produtos dependem de refrigeração também teriam uma contribuição valiosa a oferecer, uma vez que as vacinas precisam ser mantidas a temperaturas baixas. Dessa maneira, por que não usar caminhões frigoríficos de grandes empresas alimentícias?

Não vejo por que as empresas não possam até anunciar tais iniciativas. O marketing de causa seria parte integrante da mobilização corporativa. Seria algo como o marketing do bem, que estimularia outros agentes a fazer algo em prol da coletividade. Se todos trabalharem juntos, a vida vai voltar ao normal mais rapidamente.

Vacinação em lojas? Vacinas transportadas como sorvete? Antes de se espantar com ideias assim, considere que a gravidade da doença já matou 1,5 milhão de pessoas no mundo exige que pensemos fora da caixinha. Como disse o psicólogo americano Carl Rogers (1902-1987), onde há vontade, há caminhos.

*Tatianna Oliva, fundadora da Cross Networking

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