A vacina anticovid-19 servirá também para conter a pandemia dos transtornos emocionais?

A vacina anticovid-19 servirá também para conter a pandemia dos transtornos emocionais?

Pablo Vinicius Oliveira Gomes*

15 de janeiro de 2021 | 13h25

Pablo Vinicius Oliveira Gomes. FOTO: DIVULGAÇÃO

Minha resposta a essa pergunta é bem pragmática: Em parte, sim. Então, como uma vacina desenvolvida para debelar uma infecção viral pode nos ajudar a combater uma epidemia de transtornos emocionais, como depressão, ansiedade e insônia?

A pandemia do coronavírus trouxe consigo uma serie de fatores de risco para o adoecimento mental. Quando governos de todo o mundo impuseram o isolamento social como medida mais eficaz para conter a transmissão do vírus, nós, da saúde mental, sabíamos que estava por vir uma epidemia ainda maior: a das doenças mentais.

A própria Organização Mundial da Saúde, ainda em Maio de 2020, trouxe o tema para o centro do debate. De acordo com Devora Kestel, diretora do departamento de saúde mental da OMS, o isolamento social, o medo da doença, as incertezas e o caos econômico com milhares de empregos desaparecendo seriam capazes de causar intenso sofrimento psicológico. Segundo Kestel, era esperado um aumento no número e na gravidade de doenças mentais, e que os governos deveriam colocar a questão “na linha de frente” de suas ações.

E realmente aquilo que era temor e previsão se tornou uma triste realidade.

A primeira pesquisa que nos alertou para esse fato foi um estudo realizado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, publicado em maio de 2020, com 1.460 pessoas em 23 estados e todas as regiões do país. Segundo os pesquisadores, com a pandemia e o isolamento social consequente, houve um aumento de 90% dos casos de depressão e 80% de ansiedade. Esse dado foi confirmado por uma pesquisa feita pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com 1.996 pessoas maiores de 18 anos de idade nos meses de maio, junho e julho que revelou aumento de 80% nos casos de ansiedade. Quanto ao sono, pesquisa feita pela UNICAMP com os paulistanos revelou aumento de 30% nos casos de insônia e quase 20% no aumento de bebidas alcoólicas.

Minha experiência profissional confirma esses dados científicos. Em uma pequena analise de meu consultório, observei um aumento de 70% para as consultas psiquiátricas em relação ao período pré- pandemia.

Nesse contexto de adoecimento mental em razão do vírus e das medidas que foram tomadas para contê-lo, podemos afirmar sim, que a vacina anti-covid é uma esperança para conter a pandemia dos transtornos emocionais. Uma vez que as pessoas voltarão a se sentirem mais seguras e estáveis. O risco estará controlado e a vida voltará ao normal, ou como alguns dizem, ao “novo normal”.

Porém, no fundo no fundo, não é isso que mais me preocupa. Mais cedo ou mais tarde o mundo entraria nos eixos novamente, seja pela vacina ou pela imunidade de rebanho. O que mais me preocupa é que antes da pandemia já estávamos muito doentes. Já éramos o país com o maior número de transtornos de ansiedade do mundo. O país mais depressivo da América Latina, o quinto do mundo.

A pandemia veio só potencializar a tragédia que já vivíamos. A pandemia veio colocar pra fora o que estava escondido na rotina doentia de milhares de brasileiros. Agora não tem como fechar os olhos para esse tema. Milhares de trabalhadores já estavam afastados de seus locais de trabalho por diagnósticos psiquiátricos e no pós pandemia isso vai piorar.

Por isso que respondi a pergunta do titulo do artigo: Em parte, sim. A vacina anti-covid 19, de fato, vai ajudar a reduzir a ansiedade relacionada ao vírus e às consequências sociais dele, mas não vai alterar os princípios e valores sociais que estão nos adoecendo, como a intolerância, o egoísmo e a competitividade selvagem. É para essa situação que deveríamos achar uma vacina!

*Pablo Vinicius Oliveira Gomes, psiquiatra, neurocientista e pesquisador

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.