A última segunda-feira de 1992

A última segunda-feira de 1992

Bernardo Pasqualette*

28 de dezembro de 2020 | 05h00

Daniella Perez. FOTO: TV GLOBO/DIVULGAÇÃO

Hoje, como em 1992, a última segunda-feira do ano cai em um dia 28 de dezembro. Exatos 28 anos atrás, aquela data prometia ser quente: o Senado se reuniria para julgar o presidente Fernando Collor no derradeiro capítulo de seu espetaculoso processo de impeachment. Dez entre dez jornalistas apostariam que aquele fato e seus desdobramentos dominariam o noticiário da última semana do ano, normalmente morna em função dos preparativos para o réveillon.

Aposta errada. Um fato ocorrido na noite daquela mesma segunda-feira atropelaria as redações dos jornais: uma jovem havia sido encontrada morta em um matagal na Barra da Tijuca. Até então, nada incomum, dado o histórico de violência do Rio de Janeiro. Só que a moça era conhecida por milhões de brasileiros que diariamente a assistiam na novela mais popular do país. Tratava-se de Daniella Perez, a Yasmin de De Corpo e Alma.

Contra a atriz não foi deferida qualquer clemência: seu corpo foi encontrado com dezoito perfurações, a maioria delas na região do coração. O que já era muito ruim se deterioraria por completo nas primeiras horas da manhã do dia seguinte, quando foi revelado ao país que Guilherme de Pádua, ator que contracenava com Daniella, confessara o crime. Pouco depois, viria à baila a participação de Paula Thomaz, então esposa do assassino confesso, na trama homicida.

Do choque passara-se ao estupor. Um país enlutado assistia incrédulo ao relato de que o casal consolara a família da vítima na própria noite do crime. A tragédia sobrepujou as fronteiras brasileiras. Foi notícia no The New York Times e na NBC. Nunca antes um fato ocorrido no Brasil tivera tanto destaque na imprensa norte-americana. Nem voltaria a ter.

Dada a repercussão do crime, a imagem de Daniella Perez volta e meia acaba associada ao estigma da tragédia. Não é justo lembrá-la assim. Bailarina por vocação, antes de estrear na televisão já havia conquistado um lugar em uma das mais tradicionais companhias de dança do Rio de Janeiro, a Vacilou Dançou. Talentosa, levava a vida a dançar e isso parecia dar sentido a sua existência.

Dos palcos para a tela, teve como escola a própria televisão. Debutou na telinha no primeiro sábado de setembro de 1990, em Barriga de Aluguel, interpretando justamente uma bailarina. Em uma ascensão meteórica, atuaria em três novelas em menos de dois anos e meio.

Bernardo Pasqualette. FOTO: DIVULGAÇÃO

A cada trabalho, suas personagens alcançavam maior destaque. Em seu melhor momento, contracenou com Fernanda Montenegro e Antônio Fagundes na cena decisiva de O Dono do Mundo. Daquele longínquo sábado de 1990 até a última semana de 1992, quando gravou suas derradeiras cenas, Daniella cativara o grande público e se tornara a nova “namoradinha do Brasil”.

Não foi pouca coisa.

Sua breve trajetória comportou também algum ativismo. Após o assassinato da estudante Mônica Granuzzo, ocorrido em meados da década de 1980, Daniella, ainda adolescente, se somou a um protesto contra a violência sofrida pelas mulheres. Em suas mãos, uma faixa com o nome da vítima. Exatos 2.762 dias depois, em janeiro de 1993, outras jovens empunhariam faixas a clamar por justiça. Só que, dessa vez, o nome de Daniella estaria pintado em letras vermelhas, ao lado do nome de Mônica.

Glória Perez, mãe de Daniella, travou duas árduas batalhas durante a década de 1990: contra a impunidade e contra a leniência da legislação penal. Venceu ambas. Coube a ela viabilizar a primeira emenda popular pós-redemocratização, transformando o homicídio qualificado em crime hediondo. Também se empenhou em reunir provas que, posteriormente, se revelariam fundamentais para o julgamento do caso.

Transformou o luto em luta. Novamente, não foi pouca coisa.

Já o casal foi condenado por homicídio duplamente qualificado. Nada trará Daniella de volta, mas a condenação significou -ao menos- o resgate da verdade. Inicialmente sentenciados a penas próximas aos vinte anos de prisão, cumpririam menos de sete em regime fechado. Ao final de 1999, ambos já estavam de volta às ruas, e, antes de completar simbólicos dez anos do crime, foram beneficiados por um indulto.

Certa vez, Glória afirmou que teve a justiça possível. Para alguns, um eufemismo para injustiça. Seja como for, a questão que permanece umbilicalmente ligada ao caso é uma só: houve – de fato – justiça para Daniella Perez?

Vivendo seu auge no final de 1992, Daniella parecia ter o dom da ubiquidade. Onde quer que chegasse, contagiava todos com sua alegria. Atuava, dançava e em breve pretendia retornar ao ensino superior, que já frequentara por um curto período, cursando Direito.

Seus sonhos iam de realizações profundas a aspirações mundanas: queria ter filhos, sonhava em fazer cinema no Brasil e gostaria de, um dia, conhecer as ilhas gregas. Com mil planos para 1993, uma de suas últimas declarações dá a medida exata do que lhe passava pela cabeça naquele momento: “Quero mais da vida”.

Justamente o que lhe foi negado há exatos 28 anos.

P.S.: Toda solidariedade a Glória Perez e Raul Gazolla neste dia tão difícil.

*Bernardo Pasqualette, advogado e professor da Pós-graduação da PUC-Rio

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