A última palavra

A última palavra

Cassio Grinberg*

18 de dezembro de 2020 | 07h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Fico às vezes me perguntando: não fosse nossa necessidade de “dar a última palavra”, quantas equipes ainda poderiam estar sintonizadas? Quantos relacionamentos ainda poderiam estar de pé?

Vivemos um tempo tenso, onde muitas vezes nos esquecemos daquele ensinamento que nos questiona: queremos ganhar a discussão, ou queremos ser felizes?

Estamos em tempo de pensar no outro, e não de tratar angústia alheia como farelo de pão. Estamos em tempo de ler relevando, e não de começar uma discussão que quase sempre é por quase nada. Estamos em tempo de questionar convicções, e não viver impondo certezas randômicas.

Dar a última palavra não nos faz mais inteligentes, tampouco vencedores de nada: a última palavra prolonga a briga, contamina o clima, piora as crianças. Ataca e não protege, é gasolina e não energia solar, pode derrubar governos mas não erguerá nada em nossas empresas ou casas. Um hábito para lá de superestimado.

É claro que, também, opiniões não consensuais podem construir projetos ricos. Discutir tem medidas saudáveis, mas também tem níveis que ferem, e vão se acumulando sob a superfície da sala em entulho tão aparente que, quando entram em nossas empresas ou casas, os clientes e convidados chegam a precisar desviar.

Dar a última palavra pode representar a diferença entre nos reencontrarmos 15 minutos após como se quase nada tivesse acontecido, ou ter que tropeçar na valsa do arrependimento: regressar ao que não pode mais ser, prometer o que (sabemos) já não pode ser cumprido — de tão esticado, o elástico do perdão pode rebentar.

E então conseguimos o que queríamos. Mas também perdemos mais uma chance: a última palavra foi nossa. Mas foi mesmo a última.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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