A trovoada aconteceu

A trovoada aconteceu

Fernanda Zacharewicz*

03 de abril de 2021 | 03h50

Fernanda Zacharewicz. FOTO: FÁBIO MUNIZ

Apesar do sol que insiste em nascer em minha janela toda manhã e colorir a copa da quaresmeira de um verde que contrasta com o azul do céu de outono, há mais de um ano vivo um prolongado período nublado, no qual as horas, os dias, os meses se confundem. Período caracterizado por um silêncio que se expande, impossível de ser nomeado, que esconde em si todos os horrores.

O horror tem engolido velozmente o tempo de vida, a vida usurpada desde o golpe de 2016 até os milhares de mortos diários de hoje, e esse mesmo tempo se arrasta indefinidamente enquanto espero o sol voltar a nascer, ou a estrela voltar a brilhar.

Minha aposta é de que sempre existem palavras para expressar o que vivemos. Há que se dispor a buscá-las. Nos últimos tempos, me sinto numa dessas intermináveis ligações de telemarketing: o gerúndio se aplica a tudo. Não sobrevivi à pandemia, estou sobrevivendo à pandemia. Se perguntam como estou, a resposta mais sincera exige a aplicação do gerúndio: indo.

Quando usamos o gerúndio, nem o início nem o fim ficam claramente delimitados. Esses dias tive um sonho no qual um amigo me pergunta: “Eu vou ficar bem?” Eu respondo que sim. Ele acrescenta: “Eu vou ser feliz?” Paro o que estou fazendo, olho-o profundamente: “Sim, você vai ser feliz.”

Todos sabemos que o sonho, para qualquer psicanalista, é expressão do desejo. Há que sustentar esse desejo então, o desejo de ser feliz. Mas com a psicanálise também aprendemos que o desejo é individual, cada sujeito tem o seu. Não se empresta, não se convence o outro a partilhar de seu desejo. Ou se assume o próprio desejo ou nada feito… Desejar é verbo que exige ser conjugado no presente. E era esse o desejo sustentado no tempo presente daquele sonho: o desejo de vida. Sustentar a vida. Sustentar a própria vida num momento em que a ameaça se torna explícita. Sustentar a própria vida enquanto vida inteira, não dilacerada pela obscenidade da crise econômica e sanitária.

O desejo pela vida se torna urgência quando a ameaça se torna palpável, quando cai o fino véu da garantia que todos jogamos sobre a própria existência. É nessas horas que a opção pela própria vida se faz mais clara, escolha fundamental. É da própria vida que se tem que dar conta; para os que creem, é somente da própria vida que se vai prestar contas. É a radicalidade dessa opção que faz possível o laço sincero com o outro, que faz – nesses tempos de COVID-19 – a preservação da vida do outro também possível. Pois eu conto: eu, sujeito individual, conto, conto como uma, como ímpar, como única. Assim como todos aqueles que dividem o planeta comigo contam enquanto um.

O amor em tempos de pandemia nasce da escolha que funda o sujeito, da escolha radical pelo próprio desejo. Kierkegaard, filósofo dinamarquês, em seu livro sobre a repetição, escreve: “Quando tudo para, quando o pensamento se imobiliza, quando a língua se cala, quando a explicação regressa desesperada à casa – aí tem que acontecer uma trovoada. Quem pode entender isso?”

A trovoada aconteceu. Depois da tempestade, as nuvens se dissiparam, o céu já não está nublado. Com aquele sonho, saí do verbo no gerúndio, tive a certeza da felicidade, a certeza da aposta sem garantias. A resposta dada no sonho repito nestas linhas: “Sim, vai ser feliz.” E se a repetição traz o novo, sei que nossa estrela voltará a brilhar.

*Fernanda Zacharewicz é psicanalista, doutora em Psicologia Social pela PUC/SP, editora da Aller Editora

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