A tristeza dos heróis e vilões

Mauricio Fronzaglia*

16 de junho de 2019 | 06h00

Sérgio Moro e Deltan Dallagnol são vistos como heróis através das suas ações na ‘Operação Lava Jato’. Combateram e venceram as raízes do mal que assolavam o Brasil. Mais do que isso, combateram o personagem que, na visão de parte da população brasileira, é a expressão maior de todo esse mal: Luiz Inácio Lula da Silva.

Por outro lado, os defensores do ex-presidente o enxergam como o herói que teve a coragem e a habilidade de combater as elites que por séculos exploraram o povo brasileiro. Lula seria o ‘guerreiro do povo brasileiro’.

As duas visões passam o tempo a vociferar suas virtudes e a denunciar a maldade nunca antes vista daqueles que estão do outro lado. Contudo, uma questão importante se perde nesta polarização: quais suas raízes?

Uma possível explicação pode ser feita a partir do ditado: ‘Infeliz é a nação que precisa de heróis’.

A frase é bem conhecida e constantemente usada. Há variações como ‘pobre a nação que precisa de heróis’.

O significado, contudo, não sofre alterações. E por que é infeliz a necessidade do herói? O herói é, por definição, aquele que traz em si capacidades incomuns e que tem o poder de realizar atos extraordinários.

O herói é aquele que concentra as virtudes e qualidades para fazer o que os indivíduos e a sociedade, por si mesmos, não conseguiriam.

Uma nação que precisa de heróis seria, então, infeliz por não ser capaz de realizar suas potencialidades e desejos sem a ajuda de alguém extraordinário.

Infeliz é a nação que precisa do antônimo do herói: o vilão.

O vilão é aquele que concentraria em si todas as mazelas, maldades e vícios existentes na sociedade.

Infeliz é também a sociedade que não é capaz de reconhecer seus próprios males e vícios projetando-os na figura do vilão.

O vilão torna-se ‘o mal’.

A polarização atual se expressa nesta dicotomia de heróis e vilões. Na verdade, ela funciona de forma a fazer desaparecer as nuances, as convergências, e os espaços de diálogo e de construção de consensos provisórios.

Desaparecem os pontos de convergência que podem existir entre grupos diferentes e desaparecem as alternativas políticas de compromisso.

Tudo reaparece nesta triste visão de nós e os outros, os heróis e os vilões.

*Mauricio Fronzaglia é cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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