À tripa forra

À tripa forra

José Renato Nalini*

06 de fevereiro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A expressão é antiga, mas carregada de significado e simbolismo. Significa à larga, com excesso, exagero e abundância. É utilizada para designar a volúpia famélica de quem se alimenta às custas de outrem. No caso, às custas da “Viúva”, como é conhecida a República brasilis.

É impressionante a persistência do hábito das mordomias, resquícios nostálgicos da monarquia, na volúpia de se extrair do Erário tudo o que for possível e mais um pouco.

Recorrente, na mídia, indagar se é necessário o consumo de gêneros alimentícios sofisticados, aqueles que nunca entraram nas favelas, nos cortiços, inacessíveis aos moradores de rua, mas também aos desempregados, e que vão parar no buxo de autoridades.

Compreende-se que a nutrição faça parte do receituário de uma vida saudável. As empresas, instituições que sobreviveram quase sempre sem alavanca do governo, perceberam que oferecer alimentação balanceada a seus empregados é um investimento, não um custo. Poupa-se o tempo da locomoção, incentiva-se o companheirismo, inibe-se o consumo de comida prejudicial à higidez física.

Justificável, também, a preocupação com a alimentação das crianças confiadas à educação convencional. A escola deveria ser o lugar onde, além de transmitir informações e dados disponíveis no mundo web e acessíveis às novas gerações, todas formadas por nativos digitais, se ensinaria a semear, a plantar, a colher, a preparar alimento nutritivo e saboroso.

Por sinal, São Paulo vivenciou uma experiência gloriosa durante os vinte e seis meses em que respondi pela Secretaria Estadual da Educação. Essa notável mulher que é Janaína Rueda, egressa da escola pública, devolveu em cêntuplo o que lá aprendeu. Com os insumos fornecidos pela política estatal de alimentação escolar, comandou o projeto “Cozinheiros da educação”. Elaborou receitas que tornaram os pratos apetitosos. Os alunos faziam fila para bisar almoço ou jantar.

Ela foi à cozinha, trabalhou ao lado das merendeiras, entusiasmou-as, foi um sucesso. E ela é tão afeiçoada à educação, que junto com seu marido, Jefferson Rueda, inicia outra empreitada que tem tudo a ver com as necessidades do Brasil de nossos dias. Uma escola de cozinheiros para resgatar a cozinha caipira bandeirante, que sem dúvida será um sucesso.

Oferecer à criança refeição compatível com suas necessidades, respeitando a faixa etária e prestigiando a produção local, os usos e costumes, é meritório. Não é disso que se fala aqui.

O que deveria causar indignação é a aquisição de produtos dispensáveis, para abastecer as dependências de Palácios. Que volúpia por caviar, faisão, camarão, foie-gras, quando o povo tem sua mesa carente do mínimo existencial!

Como adquirir vinho e outros etílicos se grande parte da população consome água contaminada, como ainda ocorre no Rio de Janeiro. Qual o número de brasileiros que não dispõe de água doce?

Um país que não consegue assegurar a todos os seus filhos o mínimo existencial, não tem o direito de oferecer pasto requintado aos agentes de autoridade. Estes deveriam dar o exemplo. A frugalidade é uma virtude e, em tempos de crise grave e brava como a nossa – para só falar na calamitosa situação econômica – as virtudes dos governantes servem de conforto e esperança para os desvalidos.

O Brasil sempre olhou com inveja e admiração para os Estados Unidos. Recentemente, reatou esse vínculo umbilical, a retomar o lema “tudo o que o Mestre mandar”. Pois se quiser continuar a mimetizar o que acontece em território de Tio Sam, preste atenção ao que afirma o incomparável Barack Obama, o 44º Presidente dos Estados Unidos, em seu livro de memórias “Uma Terra Prometida”:

“(Aqui é preciso deixar claro – só porque muitas vezes as pessoas ficam surpresas ao saber disso – que a Primeira Família paga do próprio bolso por qualquer móvel novo, assim como tudo o que consome, desde alimentos e papel higiênico até funcionários adicionais para um jantar privado do presidente. O orçamento da Casa Branca de fato aloca verbas para que o novo presidente reforme o Salão Oval, mas, apesar do forro um tanto gasto das poltronas e sofás, concluí que uma recessão histórica não era o momento mais adequado para troar o estofamento”.

É. Os Estados Unidos são pobres. Seu presidente paga pelo café da manhã, almoço e jantar. O Brasil é rico. Pode gastar com a mesa farta, para que os ocupantes transitórios dos cargos de comando se tratem à tripa forra…

Será que algum dia alcançaremos um nível aproximado ao de uma República, em que o interesse de todos se sobreponha aos delírios do monarca? A conferir.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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