A tragédia de Manaus e o soft power de Maduro

A tragédia de Manaus e o soft power de Maduro

Cássio Faeddo*

18 de janeiro de 2021 | 09h30

Cássio Faeddo. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Roraima tem como principal destino de seus produtos a Venezuela, e essa relação ocorre em grande parte por razões de logística. Por outro lado, a Venezuela também fornece insumos para o norte do Brasil, a exemplo de gases industriais.

Não haveria muito sentido, por exemplo, se a White Martins, com diversos polos no Brasil, enviasse produtos como oxigênio em cilindros, a partir do sul do Brasil.  Por isso, não há novidades na intensa relação entre o Brasil real e a Venezuela real.

A novidade, para espanto de muitos, foi o uso de soft power pelo governo Maduro, não criando obstáculos internos nesta relação comercial no que se refere ao envio de oxigênio para Manaus.

Soft power, na teoria das relações internacionais, é a forma que um estado nacional utiliza para influenciar a opinião dos demais atores internacionais a seu respeito. Para isso são utilizados diversos instrumentos como ações culturais, humanitárias, bolsas de estudos em universidades, dentre outros exemplos. Uma das mais recentes e eloquentes ilustrações é o k pop, que trouxe a Coreia do Sul mais próxima dos países ocidentais, utilizando para isso a música pop.

Maduro está muito distante da simpatia do k pop, mas sem dúvida, não criar embaraços para dificultar o envio de oxigênio para Manaus, bem como apoiar a vinda de médicos, são formas inteligentes de carrear alguma simpatia para seu governo.

Essa atitude, ao certo, afronta a extrema-direita brasileira, mas atinge o cidadão comum de forma diversa. Vale lembrar que os EUA enviaram milhões de comprimidos de cloroquina, medicamento descartado por lá, e que não evitou as milhares de mortes em solo estadunidense. Por isso, a ação humanitária venezuelana equivaleu a acender uma vela na escuridão.

Outro país que ignorou o Brasil foi a Índia, ironicamente membro dos Brics, ao bloquear o envio de insignificantes dois milhões de doses de vacina para o Brasil, haja vista o fato de ser um país com mais de um bilhão de habitantes.

O Brasil, procurando constranger o governo indiano, até mesmo preparou um avião para buscar o imunizante. Mas a pressão interna na Índia foi maior que a vontade brasileira de marcar o início já tardio da vacinação brasileira.

Portanto, no jogo político internacional as aparências enganam, e uma visão ingênua das relações entre os países pode muitas vezes surpreender as pessoas.

*Cássio Faeddo, advogado. Mestre em Direito. MBA em Relações Internacionais – FGV/SP

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