A telemedicina e a subtração da realidade

A telemedicina e a subtração da realidade

Roberto Claudio Rodrigues Bezerra*

20 de abril de 2021 | 08h05

Roberto Claudio Rodrigues Bezerra. FOTO: DIVULGAÇÃO

Diante do colapso no sistema de saúde, a telemedicina tem sido apresentada como panaceia, saída miraculosa e até mesmo substitutiva para os serviços de saúde no Brasil, públicos e privados. Não é.

O termo tem sido aplicado de forma até excessiva para definir o uso integrado de diversas tecnologias biomédicas e de informação e comunicação que estão em processo de evolução.

Com ampla aceitação social, pelas próprias necessidades causadas pela pandemia, pelos ares de modernidade, além do possível impacto na redução dos custos, a busca por soluções tecnológicas é atraente, mas nem sempre carrega respostas sustentáveis para os complexos desafios do dia a dia das redes de saúde.

O colapso atual até pode estimular a otimização da medicina à distância, mas prioritariamente para apoiar a melhoria dos serviços presenciais, tanto no Sistema Único de Saúde quanto no setor privado.

A pandemia não desaparecerá rapidamente e deixará milhares de pacientes com sequelas da Covid-19, além de uma demanda reprimida das outras enfermidades.

A telemedicina naturalmente ganha espaço, mas precisa de investimentos e, mesmo assim, não substituirá o básico e essencial componente presencial.

Durante o mestrado que fiz na Universidade do Arizona, em 2001, tive a oportunidade de desenvolver meu trabalho final em telemedicina. Naquela época, a definição bastante ampla do termo motivava excessivo entusiasmo e expectativas com as tecnologias emergentes. A política era primariamente dirigida para fazer chegar atendimento profissional à distância em tribos indígenas e comunidades isoladas dos EUA.

Com mais limitações pela época, tanto a interação médico-paciente, como treinamento, apoio diagnóstico e leitura remota de exames eram uma realidade já há 20 anos.

Mais recentemente, nos últimos oito anos como prefeito de Fortaleza, implantamos algumas formas de aplicação da telemedicina. Especificamente durante o primeiro ano da pandemia da Covid-19, ela foi utilizada tanto para apoiar profissionais de saúde no esclarecimento diagnóstico e terapêutico, como diretamente para informar e orientar os pacientes sobre seus sintomas, cuidados gerais e a eventual necessidade de busca de assistência médica.

Na realidade, muitas formas de telemedicina a cada dia se tornam mais úteis na assistência à saúde. No entanto, é preciso evitar o excessivo entusiasmo. Ainda é necessário investir muito naquilo que é básico e realmente interessa: formar bem os profissionais de saúde, diversificar a composição das equipes de saúde locais, disponibilizar mais métodos diagnósticos e opções terapêuticas, investir na humanização e qualificação do contato profissional, além de integrar e gerenciar bem sistemas assistenciais, entre outras carências.

Recentemente, após a posse do quarto ministro da Saúde do atual governo, na ausência de posições mais assertivas sobre a pandemia ou mesmo de novas ideias para o SUS, ouvimos repetidas referências à telemedicina. Nada Contra. Ela pode ser útil inclusive para expandir o acesso à assistência.

Mas o SUS precisa, principalmente, de mais recursos e investimentos; transparência e eficiência no gasto; cooperação entre União, estados e municípios; mais auditorias e controle de resultados; foco em indicadores e prioridades epidemiológicas claras que possam guiar as ações nacionais do sistema de saúde e inovações gerenciais que podem, inclusive, serem tecnológicas.

O direcionamento genérico, desinformado ou mesmo manipulativo nas referências à telemedicina não pode confundir a opinião pública sobre o seu papel real e o seu potencial. Que a telemedicina seja cada vez mais útil para ser instrumento de ampliação do acesso e de qualificação de atendimentos e de sistemas de saúde, mas, jamais, meio para subtrair os mesmos.

*Roberto Claudio Rodrigues Bezerra, 45 anos, é médico sanitarista com Mestrado e PhD em Saúde Pública pela Universidade do Arizona, e ex-prefeito de Fortaleza (2013 a 2020)

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