A tática blitzkrieg do vírus em Manaus

A tática blitzkrieg do vírus em Manaus

Sandro Nahmias Melo*

17 de fevereiro de 2021 | 14h30

Sandro Nahmias Melo. FOTO: DIVULGAÇÃO

O carnaval de 2021 na capital amazonense segue em ritmo de uma longa e dolorosa quarta-feira de cinzas. Mesmo em lockdown estendido, as mortes por Covid-19, em 45 dias, superam o número de todo o ano de 2020. As vítimas, segundo dados, são mais jovens e sequer apresentam comorbidades. Uma passarela de horror, sofrimento e asfixia segue nos hospitais.

A nova cepa do vírus que tomou de assalto a cidade de Manaus tem voracidade de proporções amazônicas. É pelo menos três vezes mais contagiante e duas vezes mais letal. Os números, portanto, não podem merecer apenas compaixão distante ou mesmo a – elogiável – solidariedade de campanhas particulares destinadas a suprir a omissão estatal. O caos pandêmico que impera em Manaus, se não controlado, ameaça o Brasil. O mesmo Brasil que, em muitas cidades, segue brincando e aglomerando no carnaval, olhando as notícias de Manaus como uma realizada distante. Enquanto isso, o vírus não brinca.

Manaus apresenta o quíntuplo da média de mortes das capitais brasileiras em 2021. #nãosãoapenasnúmeros. Neste domingo (14.2) faleceu o presidente do Tribunal Regional Eleitoral, desembargador Aristóteles Thury. Na segunda-feira, o Amazonas perdeu o ex-procurador Geral de Justiça Francisco Cruz e o ex-prefeito de Parintins Enéas Gonçalves. A cada dia novos nomes, como Zezinho do grupo Carrapicho, são acrescidos a uma lista que parece não terminar. São nomes mais conhecidos mas não mais importantes que as centenas de mortos por COVID nos primeiros dias de fevereiro. Várias são as notícias de família inteiras destroçadas pelo inimigo invisível nesta guerra desigual.

Nesta sexta-feira de carnaval (12.2) voltou a Manaus o ministro da saúde Eduardo Pazuello para apresentar estratégias de combate à COVID-19, pela terceira vez em um mês.

A lógica deveria ser simples: diante das batalhas perdidas, Manaus exige uma estratégia diferente nesta guerra contra o inimigo sorrateiro. Ponto.

O ministro general Pazuello deve entender que uma guerra travada em casa, em especial, não admite erros de estratégia.  Em sua obra “arte da guerra” Sun Tzu adverte sobre a importância de conhecer o inimigo, conhecer a si mesmo e o lugar do combate, ressaltando que a luta desprovida de boa estratégia conduz inexoravelmente à derrota.

Ora, já conhecemos o inimigo e não podemos ficar repetindo o que não deu certo. A estratégia a ser adotada é clara: vacina sim, VACINA JÁ! Esta é a estratégia vitoriosa de Israel, país que até hoje nunca perdeu uma guerra contra inimigos, do ponto de vista geográfico, muito maiores.

O “carnaval” israelense contabiliza 40% da população vacinada. Esta sim, uma grande festa popular. O resultado é uma queda no número de mortes nos últimos dias e também do coeficiente de infecção, que caiu para 0,88, o menor em três meses. Ressalte-se que apesar dos números positivos, Israel segue com uma rotina de quarentena. Shoppings e lojas de rua permanecem fechados, bares e restaurantes não podem receber clientes dentro do estabelecimento. O país todo segue confinado, com voos internacionais suspensos até o próximo sábado.

É imperioso que a estratégia da vacina seja adotada para toda população de Manaus e para o Amazonas. Todos acima de 18 anos devem ser vacinados. Não se trata de furar fila, de defender privilégios, trata-se de obstruir o ataque arrasador do inimigo invisível para que este não tome o restante do país. O inimigo Covid-19 segue na sua tática blitzkrieg. Temos que contra-atacar já. A demora na resposta pode comprometer todo o território nacional.

Vacinar Manaus, enquanto ainda é tempo, representa o resgate de uma população sob ataque violento, já sem forças, exausta e literalmente asfixiada. Representa também o contra-ataque do Brasil nesta guerra, assim como a proteção de todas as famílias do território nacional. O país não tem estrutura para reviver o caos pandêmico manauara.

O Manauara, o amazonense, tal qual um doente grave que precisa de tratamento intensivo, clama por fôlego novo, clama por vacina e por VACINA JÁ! O Amazonas que é conhecido como pulmão do mundo precisa de oxigênio, oxigênio que só a vacina pode oferecer ou… seguiremos em uma lamuriosa e interminável quarta-feira de cinzas.

*Sandro Nahmias Melo, juiz do Trabalho titular – TRT da 11.ª Região. Mestre e doutor em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP. Professor adjunto da Universidade do Estado do Amazonas. Membro da Academia Brasileira de Direito do Trabalho (cadeira 20). Presidente da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 11ª Região – AM e RR

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