A sustentabilidade da soja brasileira

A sustentabilidade da soja brasileira

Claudia Costa*

18 de janeiro de 2021 | 07h00

Claudia Costa. FOTO: DIVULGAÇÃO

O presidente francês Emmanuel Macron declarou em vídeo, essa semana, que continuar a depender da soja brasileira causaria o desmatamento da Amazônia. Sobre a soja brasileira, precisamos esclarecer alguns fatos.

Antes, vale lembrar que o governo francês anunciou, no ano passado, um plano de 100 milhões de euros para incentivar um programa de desenvolvimento agrário a fim de permitir que seu país reduza a dependência da soja importada, incluindo a brasileira. Conforme o anúncio apresentado pelo Ministro da Agricultura Julien Denormandie, o objetivo seria acabar com a importação de soja ligada ao desmatamento e, para isso, o caminho seria cultivar a leguminosa em seu país.

Na mesma semana, o anúncio da saída do Brasil da montadora Ford consolidou um exemplo contundente de que subsídios não criam competitividade sustentável. Na verdade, subsídios vão na contramão da sustentabilidade. Além de eventualmente poder contrariar as regras da OMC, eles prejudicam o comércio, distorcem os preços globais e o funcionamento do mercado, permitindo que produtores mais ineficientes respondam por uma parcela maior do mercado.

Voltemos à soja. A França importa cerca de 5 milhões de toneladas de soja ao ano, tendo como principais exportadores Brasil e Estados Unidos. A produção atual desse país europeu é de 200.000 toneladas por ano (5% de sua demanda), plantadas em cerca de 400.000 ha. Dessa forma, seriam necessários cerca de 2 milhões de hectares de soja plantada para o país atingir a autossuficiência.

Já o Brasil, ainda mantém 66% de sua vegetação nativa, sendo que 25% de toda a área protegida está dentro das propriedades rurais, segundo a Embrapa. O cultivo de soja representa apenas 4% de todo o território nacional. Desses, apenas 10% do cultivo se encontra no bioma amazônico, sendo que desde 2008 ele está desvinculado ao processo de desmatamento porque antes disso, em 2006, foi assumido o compromisso conhecido como moratória da soja, de não comprar soja de áreas de desmatamento. Além disso, estamos conseguindo aumentar nossa produtividade sem a expansão de novas áreas, através do uso de tecnologias.

Ou seja, se a França quer uma soja sustentável, não faria mais sentido continuar adquirindo a nossa, que é mais competitiva, gerando uma relação de ganha-ganha? Eles receberiam uma soja (ou matéria prima) mais barata, nós continuaríamos líderes na exportação desse produto, gerando empregos e renda. Nós temos, de fato, um agro sustentável.

Não obstante ao plano anunciado para o incentivo da produção no país, a França pretende zerar a importação de produtos não sustentáveis até 2030. Só que zerar a importação não faz com que os produtos franceses automaticamente se tornem sustentáveis.

Em termos de sustentabilidade, vamos lembrar que temos um Código Florestal extremamente rígido que obriga nossas propriedades a terem uma reserva legal, que varia de 20% a 80% dependendo do bioma. Temos leis ainda mais rígidas em relação ao uso de defensivos e o descarte de seus resíduos, sendo o país que mais recicla embalagens de defensivos agrícolas do mundo.

Estaria então a França pensando na emissão de gases do efeito estufa? Então por que não olhar para nossas plantações com baixa emissão de carbono? Por que não considerar que nosso país desenvolveu a plantação de soja por meio de integração lavoura/pecuária/floresta, sendo capaz de realizar produções com carbono neutro?

Para além de todos esses fatores, se a preocupação é com a sustentabilidade, por que não comprar uma soja brasileira rastreada? Sim, você leu certo. Temos produtos rastreados que comprovam que não são provenientes de área de desmatamento ilegal. Um exemplo disso é a Cofco International, que mapeou 100% da soja de origem direta em 25 municípios do bioma do Cerrado em 2019[1]. Além disso, a empresa pretende mapear 100% da soja brasileira até 2023.

Finalmente, é importante ressaltar que hoje a sustentabilidade faz parte da agenda da cadeia de produção e da cadeia de consumo nacional. A sustentabilidade é uma bandeira verde e amarela.

*Claudia Costa é coordenadora da setorial de agro do Livres no Brasil

[1] https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Empresas-e-Negocios/noticia/2020/07/cofco-pretende-rastrear-100-da-soja-brasileira-ate-2023.html Acesso em 12 de janeiro de 2021.

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