A solidão do comando e a saúde mental dos executivos

A solidão do comando e a saúde mental dos executivos

João Marcio Souza*

27 de setembro de 2019 | 06h00

João Marcio Souza. FOTO: DIVULGAÇÃO

Os diversos papéis exercidos, a revolução 4.0, a “gestão” de cenários macro e microeconômicos globais em locais de alta volatilidade e incertezas, a constante cobrança por resultados a cada dia melhores aliada à mediação de conflitos de variadas naturezas, são apenas alguns dos ingredientes que fazem parte da rotina executiva dos profissionais que ocupam atualmente o alto escalão das organizações. É, portanto, indiscutível a tese que comprovadas habilidades técnicas e cognitivas, acima de tudo, são indispensáveis para o êxito esperado e a “sobrevivência” ou perpetuidade no mundo corporativo atual.

Muitos profissionais adquirem a consciência, se empenham, mas infelizmente não conseguem encontrar um ponto de equilíbrio entre a alta demanda profissional e a saúde física e mental. Nos últimos anos, enfermidades como estresse, crises de ansiedade, depressão e burnout já figuram entre as principais causas de afastamentos de executivos dentro das organizações.

De acordo com pesquisa da ONG International Stress Management Association, em 2018 nove em cada 10 brasileiros no mercado de trabalho, não somente do C-Level, apresentavam sintomas de ansiedade, variando do grau mais leve ao mais incapacitante, e cerca de 47% sofriam de algum nível de depressão. Um levantamento realizado pela Talenses Executive, com 92 executivos do C-Level, apontou que 70% da amostra apresentou em algum momento da carreira um transtorno mental relacionado ao trabalho. As crises de ansiedade e o burnout estão entre os principais transtornos apontados por estes executivos, com 40% e 36% dos respondentes respectivamente. Números muito impactantes e que devem servir de alerta. Mas afinal, onde estamos errando e quais seriam as soluções no sentido da mudança de tão preocupante realidade? Está aberto o debate neste sentido e poucas tem sido as soluções propostas para mudar este quadro certamente insustentável a médio e longo prazos.

Não é incorreto afirmar que estas doenças são consequência do mundo atual. Somos estimulados a estar sempre conectados, recebendo uma avalanche de informações. Soma-se a isso, a escassez perene de tempo e o número elevado de decisões importantes que um executivo do C-Level precisa tomar no dia a dia bem como, a “responsabilidade solitária” por cada uma delas, gerando, como consequência, um quadro de estafa mental.

Na mesma pesquisa da Talenses Executive, quando perguntados quais situações do trabalho os levam a crer que esse ambiente tenha contribuído para o transtorno, as principais respostas foram: pressão por resultado (45%), carga horário excessiva (38%), exercer funções expandidas em relação ao próprio cargo (32%).

Sair de um padrão psicológico de excesso de trabalho e alta responsabilidade e relaxar a mente nas horas vagas, pode ser possível quando o executivo toma alguns cuidados e consegue se distanciar dos problemas e estabelecer limites, como horários em que pode ser acionado para determinadas demandas e distanciamento mental dos problemas quando estiver em atividades pessoais.

O que ocorre é que nem sempre o executivo consegue sozinho manter essa disciplina para preservar seu equilíbrio mental e por isso a importância de uma ajuda profissional como a de um Coach ou Psicoterapeuta, inclusive para que evite evoluir para um quadro psicológico mais agudo e medicamentoso como consequência. Encorajar os líderes a ingressarem em uma discussão terapêutica é essencial para que as empresas evitem afastamentos e problemas dessa natureza com o alto escalão. “Psicoterapia preventiva” é decisão de pessoas conscientes e inteligentes e que certamente se amam em primeiro lugar e, portanto, se priorizam.

Entretanto, muitos executivos ainda veem a ajuda terapêutica como um tabu, associando-a à fraqueza e falta de controle das emoções ou até à loucura. Este pensamento é reforçado pelo preconceito existente em torno das doenças mentais e psicossomáticas. É muito mais comum e aceitável pela maioria das empresas, uma licença por questões físicas de saúde como câncer, do que um afastamento por depressão ou síndrome de pânico.

Como os transtornos mentais não são visíveis e apresentam sintomas muito variados (nem sempre quem está com depressão aparenta tristeza ou isolamento, por exemplo), há um viés no mundo corporativo de não levar a sério este tipo de doença e interpretar como “frescura” e até como desculpa para não enfrentar determinadas situações dentro do trabalho.

Diante destes tabus torna-se escassa a busca por soluções mais robustas dentro das empresas e, também, não há ainda, programas e preparo técnico suficientes nas Áreas de Recursos Humanos no sentido de cuidar efetivamente do estado emocional dos profissionais da alta liderança.

A chave para o bem-estar e o equilíbrio encontrada por muitos Diretores e CEOs costuma estar fora da empresa, como na prática de um esporte, um hobby e no tempo de qualidade com a família e os amigos. Dentro da empresa, no entanto, a organização do tempo, a delegação de tarefas e o fato de dar autonomia aos liderados e não ter a necessidade de controlar cada passo dos processos contribuem positivamente para uma rotina mais saudável e menos estafante.

Quanto às empresas, é importante que cada vez mais voltem o olhar à humanização da jornada de trabalho dos profissionais e criem mecanismos de identificação e ajuda aos executivos que estão entrando em uma crise emocional.

*João Marcio Souza, CEO da Talenses Executive

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoSíndrome de Burnout

Tendências: