A sociedade tem o verbo

Marco Antônio Eid*

08 de julho de 2016 | 03h00

É perturbador verificar a virulência da corrupção na estrutura do Estado brasileiro. Apesar da prisão, julgamento e aplicação de sentenças a políticos de elevado escalão e diretores de companhias de grande porte, muitos continuam acreditando no crime perfeito e seguem tentando desviar dinheiro público. Quase diariamente surgem novas notícias de fraudes, propinas e outras ilegalidades em prefeituras, governos estaduais e no contexto dos Três Poderes.

Evidencia-se que os desonestos de plantão ainda não perceberam que, na era da democracia, da comunicação eletrônica, da internet e das mídias sociais, é cada vez mais difícil enganar a imprensa, a sociedade, a polícia, o Ministério Público e a Justiça. Agora, os cidadãos têm o verbo, que lhes foi concedido pela Web. A insistência na improbidade é umatestado de falta de ética, mas nem sempre de burrice, pois se flagram nessa horrível prática pessoas de boa formação acadêmica e invejável currículo. É uma prova de que, dependendo do caráter dos indivíduos, a ganância desafia a própria inteligência e todos os demais princípios e valores.

Porém, é preciso consolidar e disseminar as mudanças representadas nos últimos anos, que quebraram o estigma da impunidade, para que esse avanço seja melhor entendido por todos e resulte em diminuição expressiva dos índices de corrupção no setor público e de suas relações espúrias com empresas privadas. Não há mais como seguir ignorando que o Estado de direito, reconquistado pelos brasileiros a partir da Campanha das Diretas Já, em 1984, já havia provocado mudanças profundas no processo de interação entre governos, a sociedade e a imprensa.

Somadas à Web, a democracia e a liberdade de imprensa suscitam transformação ainda maior, inclusive no comportamento dos políticos, cuja trajetória na vida pública pode começar com a felicidade daeleição e terminar na melancolia do cárcere. Ocupantes de cargos públicos, no Executivo, Legislativo e Judiciário, bem como os seus assessores de imprensa e profissionais de comunicação, precisam entender essa nova realidade. Ignorá-la não prejudica apenas as pessoas públicas acusadas de corrupção, mas principalmente o povo e o País, que pagam elevado e amargo preço pela instabilidade política e desperdício de dinheiro causados pela improbidade,fisiologismo e práticas contrárias à ética.

Além de eticamente condenável, é infrutífero utilizar as técnicas de comunicação, por mais eficazes que sejam, para construir artificialmente a imagem de políticos. Pode-se até conseguir por algum tempo, mas é efêmero. Não há assessor de imprensa no mundo capaz de prover o milagre da inocência. A boa imagem de prefeitos, governadores, chefes de Estado, presidentes dos órgãos do Legislativo e dos organismos da Justiça e Ministério Público pode ser consistente quando resultante de gestões eficazes, realizadoras, probas e éticas.

Contudo, numa civilização na qual a internet é mídia indomável e a comunicação tornou-se mais livre e incensurável, a queda da máscara dos maus gestores ocorre cada vez mais cedo. Propinas, superfaturamento de obras, concorrências fraudulentas, realizações fantasiosas, currículos mentirosos e retórica sem consistência são irremediavelmente escancarados àopinião pública! Não é mais possível sustentar a reputação de governos e gestores sobre os quais pesem os ônus da improbidade e da incompetência. E é ótimo que seja assim!

*Marco Antônio Eid, jornalista, é diretor de Conteúdo da Ricardo Viveiros & Associados – Oficina de Comunicação (RV&A) e autor do livro “Comunicação e Assessoria de Imprensa para Governos” (Editora M.Books).

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