A Síria nossa de cada mês

A Síria nossa de cada mês

Marina Simões*

03 de agosto de 2018 | 04h00

A guerra da Síria, de imensa crueldade e violência contra a população civil, já matou 400 mil pessoas em seus sete anos de duração, desde 15 de março de 2011, quando foi deflagrada a partir de protestos populares contra o governo ditatorial. São 57 mil mortes por ano e 4,7 mil por mês. Um flagelo humano, principalmente se considerarmos que, dentre as vítimas, encontram-se milhares de pessoas inocentes, inclusive crianças e adolescentes.

Números semelhantes observam-se no Brasil, conforme se pode constatar no Índice Nacional de Homicídios instituído pelo G1, que acompanha mensalmente as ocorrências de crimes violentos. São 21.305 pessoas mortas nos cinco primeiros meses de 2018 (sem computar os dados de cinco estados que não divulgam todas as estatísticas).

Ou seja, 4,26 mil assassinatos por mês, em média, abrangendo homicídios dolosos e latrocínios. Um cenário desolador, similar ao que se observa no conflito bélico sírio, um dos mais cruéis e devastadores desde a segunda guerra mundial.

A alarmante conjuntura de assassinatos no Brasil choca-se, de modo contundente, com o espírito pacífico, o pluralismo e a tolerância de nosso povo, constituído por grande diversidade étnica, religiosa e cultural, numa sociedade que convive em perfeita harmonia com as diferenças.

É um contraste com a violência à qual estamos expostos, cujas consequências são cada vez mais graves e amplas. Além de toda a questão humana, da destruição de vidas e famílias, são crescentes os efeitos danosos da criminalidade na economia.

Com certeza, a violência aumenta como causa do baixo crescimento de nosso PIB, somando-se aos demais fatores normalmente apontados, como desequilíbrio fiscal, corrupção (também muito grave), custo Brasil, juros altos, impostos exagerados, burocracia e insegurança jurídica.

Não se pode continuar relegando o problema a segundo plano, pois índices de assassinatos similares a de um país em guerra afugentam investimentos produtivos, ingresso de capital estrangeiro e negócios internacionais. Também limita a prospecção de mercados, considerando que há hoje no Brasil alguns bolsões de criminalidade nos quais é impensável a prospecção de negócios. Afinal, pergunta-se: quem investiria hoje na Síria?

A mesma indagação deve ser feita por empresários de todo o Brasil e de outros países com potencial interesse no Rio de Janeiro, ícone de nosso turismo e de nossa identidade nacional, mas hoje palco frequente de autênticas cenas de guerra.

Os reflexos da criminalidade também são extremamente nocivos para a população, pois agravam o desemprego e retroalimentam os fluxos recessivos. Isso é perceptível de modo claro nas ruas da Cidade Maravilhosa, onde muitas pessoas buscam subsistência no subemprego, pois muitas firmas nas quais trabalhavam estão migrando.

Ademais, as empresas despendem cada vez mais dinheiro com segurança privada para preservar seu patrimônio material, seus bens de capital e a integridade de seus colaboradores. É o que demonstra recente estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI): em 2017, o setor manufatureiro gastou R$ 30 bilhões devido a roubos, furtos, vandalismos, com seguro e segurança privada.

O mais incrível é que todos os ramos da indústria, incluídas também a extrativa e a da construção civil, investem menos da metade desse valor – apenas R$ 12,5 bilhões anuais – em pesquisa e inovação (IBGE/2015), essenciais ao nosso desenvolvimento.

É premente, portanto, que se adotem políticas públicas realmente eficazes contra a criminalidade. A violência não é mais tolerável. Além de oprimir a sociedade, pois gera estatísticas características de um país em guerra, está contribuindo para a corrosão das empresas e da economia.

O conflito sírio já levou mais de quatro milhões de pessoas a fugir e buscar abrigo em outros países.

De repente, nós, brasileiros, parecemos refugiados em nossa própria pátria.

*Marina Simões, administradora de empresas, é gerente executiva da Locar Guindastes e Transportes Intermodais

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