A singularidade no mercado financeiro

A singularidade no mercado financeiro

Gustavo de Carvalho Blasco*

19 de março de 2021 | 04h00

Gustavo de Carvalho Blasco. FOTO: DIVULGAÇÃO

Já faz algumas décadas que muitos futurólogos e cientistas, animados com nosso exponencial avanço tecnológico, preveem que, ainda na primeira metade desse século, presenciaremos uma singularidade tecnológica – na definição do futurista Ray Kurzweil uma “mudança tecnológica tão rápida e profunda que representa uma ruptura no tecido da história humana”.

Capitaneada pela explosão das potências computacionais, que incrementam de maneira nunca vista a capacidade da humanidade de armazenar e analisar dados, a singularidade se dará com a convergência de inúmeras tecnologias, tais como: inteligência artificial, computação quântica, nanotecnologia, biotecnologia, edição genética, entre outras; e implicará em cenários “hollywoodianos” como a colonização de outros planetas, o fim da velhice, a integração da inteligência biológica com a não biológica, backup do cérebro e da consciência, entre tantos outros que sequer conseguimos imaginar.

O cenário traçado acima parece muito ficcional, mas a verdade é que já estamos experimentando enormes transformações em nossas rotinas: da forma como nos comunicamos até como consumimos entretenimento, nos informamos e compramos. Até o modo como pressionamos governos e países travam conflitos mudaram drasticamente.

Com tantas transformações varrendo nosso dia a dia, o mercado financeiro não haveria de ficar de fora. Muito pelo contrário, a transformação tecnológica já começou há anos e, sendo exponencial, irá, até o fim dessa década, dizimar players tradicionais e mudar completamente a forma como investimos, obtemos crédito e transacionamos.

O ícone da singularidade no mercado financeiro, é, absolutamente óbvio, o Bitcoin. Ainda que não seja ele a se consolidar como “moeda universal”, é o marco zero de um futuro no qual os governos perderão o monopólio do dinheiro. Muito provavelmente as moedas nacionais, emitidas e reguladas pelos governos centrais serão eliminadas do mapa até o final desse século. Os indivíduos irão transacionar entre si com um pool de moedas que, ainda que se submetam a regulação governamental, não terão mais um emissor estatal e centralizado e serão finitas.

Na crise do século XXII, felizmente, não poderemos pedir milagres impossíveis para banqueiros centrais ao redor do globo e governos perdulários não conseguirão “resolvê-las” com inflação.

Se a completa transformação da moeda e de nossas reservas de valor ainda pode demorar algumas décadas, há mudanças as quais já estamos vivenciando ou vivenciaremos em poucos anos.

O mercado de crédito brasileiro está prestes a, no bom sentido, “explodir”: (i) o open banking, quando utilizado por startups com alta capacidade de análise de dados, permitirá uma absurda queda na taxa de juros para pessoas físicas e pequenas empresas e (ii) o PIX já permite que a concessão do crédito seja instantânea; (iii) o registro de recebíveis de cartão de crédito e, depois, (iv) o registro e escritura de duplicatas em registradoras com interoperabilidade permitirão que qualquer empresa, ato contínuo a qualquer tipo de venda feita (desde que declarada, evidente), obtenha crédito via aplicativo.

Ainda que o desconto de recebíveis de vendas no cartão já seja algo simples e comum, o desconto de duplicatas é um mercado absolutamente subexplorado, estima-se em trilhões o volume de crédito a ser destravado nessa modalidade. E, visto os itens (i) e (ii), tudo isso será feito de forma barata e instantânea.

Por óbvio, a transformação do mercado de crédito ocorrerá em simbiose com a do mercado de investimentos. Afinal, para desespero dos que consideram o mercado financeiro a Las Vegas dos especuladores, não existe mercado de crédito sem o de investimentos. Mesmo na singularidade, para alguém pegar dinheiro emprestado, seja qual for a modalidade, alguém tem que emprestar. Nesse mundo novo, o leque de investimentos com tickets mínimos simbólicos será multiplicado por mil.

Não bastasse a possibilidade de securitizar todas modalidades de crédito, as acima descritas e quaisquer outras, e revendê-las instantaneamente, de forma pulverizada, a milhões de investidores, já faz parte da vida real os investimentos infinitesimais de pessoas físicas em precatórios, dívidas oriundas de ações judiciais, duplicatas, equities de pequenas empresas, entre outros.

Logo, logo, qualquer pessoa, com um clique e com um real (ou um Bitcoin) poderá investir seu dinheiro de formas inimagináveis, permitindo que, do outro lado, qualquer empresa, com apenas um clique obtenha crédito barato vendendo qualquer linha do ativo do seu balanço, ou apenas suas ideias, via emissão de dívidas subordinadas ou ações.

Tudo isso com a adoção de blockchain, permitindo que toda transação seja absolutamente transparente e rastreável. Em grande passo à liberdade, as pessoas serão completamente responsáveis por sua alocação de capital, cabendo às instituições financeiras apenas prover a tecnologia e o ambiente virtual para que isso aconteça.

Por fim, para a perfeita simbiose dos mercados de crédito e investimentos, é necessária a correta identificação e cadastro de seus participantes. E para que os mercados funcionem de forma tão instantânea e simples, por óbvio, essa parte burocrática será desfriccionada por completo. E aqui, propositalmente ou não, o pontapé definitivo foi dado com o PIX. Pois, em breve, qualquer dado ou indicador biométrico do cliente bastará para sua correta identificação, seja e-mail, telefone, impressão digital ou reconhecimento facial. Os documentos ficarão guardados em uma central única e acessados via API, quando necessário.

Essa disrupção do mercado de crédito e de investimentos alavancará sobremaneira o financiamento das atividades produtivas e permitirá elevado aumento do PIB per capita ao longo das próximas décadas.

*Gustavo de Carvalho Blasco, CEO e fundador do Grupo GCB e das fintechs Adiante e PeerBr

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