A síndrome de John McEnroe

A síndrome de John McEnroe

Cassio Grinberg*

01 de março de 2019 | 09h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

No livro Mindset, Carol Dweck, professora de Stanford, define o termo mindset de crescimento: estarmos abertos a receber críticas e canalizá-las para a melhora incremental. Segundo ela, o ex-jogador de tênis John McEnroe, apesar de um talento fora da curva, cultivava um mindset que era justamente o contrário disso, como ele mesmo admitiu anos após.

É comum termos dificuldade em aceitar críticas. Em seu podcast WorkLife, o também professor de Stanford Adam Grant expôs as diferenças entre animais e pessoas diante de situações de confronto. Enquanto um pavão simplesmente abre a cauda e um macaco bate no peito e depois esquece, em nós humanos ocorre uma reação curiosa: nossos ombros se contraem e nossa respiração encurta enquanto o feedback negativo aciona um alarme interno onde nosso ego veste um escudo e saímos como guerreiros a contra-atacar sem sequer considerar.

Era o que fazia John McEnroe, quando algo dava errado: a culpa era da serragem equivocada nas mãos, do ruído do fone de ouvido do cinegrafista, da máquina opressora dos tabloides e principalmente do juiz que, quando contrapunha, acionava os acessos de raiva que fomos acostumados a assistir: raquetadas em copos d’água e ameaças teatrais de uso de influência.

Em termos empresariais, tanto no nível individual quanto no nível corporativo, não saber receber feedbacks é o inimigo número um da longevidade. Em extremo positivo oposto, a empresa americana Bridgewater adota o que chama de política de transparência radical. Nela, a crítica não apenas é aceita, mas estimulada ao ponto de haver reuniões filmadas para expor o pior desempenho entre os gerentes – e inclusive o CEO da empresa recebe emails criticando sua falta de preparação para determinado discurso “que fez todos perderem tempo”. Como resultado, a Bridgewater tem o maior hedge fund do mundo, administrando US$ 160 bilhões de dólares em ativos.

John McEnroe, por seus méritos, chegou a ser o número um do mundo. Mas enquanto venceu sete Grand Slams de simples, Roger Federer já venceu vinte. E continua desaprendendo e aprendendo dentro e fora das quadras.

*Cassio Grinberg, economista e consultor de empresas

Mais conteúdo sobre:

Artigo