A síndrome da casa parecida

A síndrome da casa parecida

Cirilo Tissot*

10 de outubro de 2020 | 06h30

Cirilo Tissot. FOTO: DIVULGAÇÃO

Os portadores de Alzheimer são vítimas colaterais das medidas sanitárias de enfrentamento à pandemia do coronavírus. Estados de demência progressiva em pacientes idosos – dentre série importante de enfermos de inúmeras doenças – ficaram à mercê do altruísmo. Do ponto de vista clínico de quem está num front diferente dos sanitaristas e infectologistas – a quem presto incomensurável respeito – a psiquiatria contabiliza baixas insanas entre portadores de compulsões, depressão e crises cujos gatilhos são acionados por isolamento social involuntário.

A supressão forçada de rotinas de interação social causou o agravamento da saúde mental em muitos. Trouxe à tona quadros confusionais em tantos outros. Pacientes inseguros e com dependência por pessoas imploraram e, muitas vezes obtiveram, a benevolência do outro em troca de um estado de eremita em dupla. Aqui se evitou a prática do suicídio, pura e simplesmente.

Das reflexões anotadas neste longo período de “embolhamento” da convivência, chama atenção paciente de Alzheimer que, diariamente, na pandemia, deu início a um estado de delírio persecutório, com gritos por socorro e demonstração de pânico às pessoas próximas.

Afirma que aquela parece a sua casa, mas não é. Tudo dentro é semelhante às suas coisas, mas algo mudou. As pessoas também mudaram, apesar de serem as mesmas.

As manifestações acontecem sempre algum tempo depois do almoço, desaparecendo após par de horas. O aumento das demonstrações de carinho não alterou o quadro. Ajustes na medicação, tampouco.

Análise do contexto social da paciente apurou que mudanças significativas ocorreram com a troca forçada na rotina de plantão das cuidadoras que a atendiam.

O uso de máscaras, cancelamento dos prestadores domiciliares de serviço, dos rituais religiosos, ausência dos netos.

Em suma, a perda de referências de uma rotina que não mais existe nos detalhes confunde, onde a razão não tem mais força e influência para interpretar ou elaborar a mudança.

A síndrome da casa parecida é o lar do novo normal, onde as pessoas amigas, quando visitam, são potenciais perseguidores, bandidos mascarados, sem identidade, mas reconhecíveis na aparência.

As pessoas amadas, neste contexto, tornaram-se potencialmente terroristas, com bombas invisíveis detonadas pelo espirro.

Sofrem com a impossibilidade do toque e do abraço que faz reconhecer emocionalmente o amigo.

A impossibilidade de sair turva a capacidade de diferenciar os dias.

A vida na mesma rotina de sempre, só que agora, muito mais igual, desencadeia transtornos de ansiedade que adquire nuances indistintas com o som ao redor.

Este caso exprime os efeitos sobre dezenas de milhares que não foram devidamente lembrados neste contexto sanitário. A reflexão sobre este quadro reforça conclusão de que não devemos combater a morte, por certa, mas as doenças que encurtam e limitam a vida. Com o sucesso em prolongarmos nossa existência começamos a sofrer de doenças degenerativas e crônicas produzidas pela idade avançada. Não temos como evita-las.

Basta saber se a sobrevida se parecerá com a vida no sentido que tínhamos anteriormente e o custo benefício disso.

Afinal, neste momento, precisamos ter coragem de responder a uma única questão:

– Qual é o sentido de sobreviver se o que nos dá sentido nos é retirado para viver mais?

*Cirilo Tissot, médico psiquiatra da Clínica Greenwood  e terapeuta familiar

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