A sinalização de uma nova fase para a sustentabilidade

A sinalização de uma nova fase para a sustentabilidade

Carlos Bocuhy*

07 de novembro de 2020 | 17h30

Carlos Bocuhy. FOTO: DIVULGAÇÃO

A vitória do democrata Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos tem um significado especial ao meio ambiente.

O alinhamento esperado do novo governo norte-americano, com a derrota de Donald Trump, às políticas progressistas da União Européia, ressaltando-se a sensibilidade da liderança da chanceler Angela Merkel, desenha um novo cenário ambiental para as relações internacionais.

Trump distanciou-se dos acordos internacionais, na tentativa de descontrução de instâncias estratégicas para a qualidade de vida planetária, como a Organização Mundial da Saúde. Joe Biden deve reverter estes retrocessos. As repercussões positivas devem se dar especialmente nas áreas ambientais, de saúde e de direitos humanos.

Desenha-se mais claramente, a partir deste momento, a possibilidade de um avanço civilizatório, com a perspectiva de negociações promissoras voltadas à sustentabilidade, inclusive com a Rússia e com a China, além de uma ascendência institucional ambiental das Nações Unidas.

Diante das mudanças climáticas pode parecer óbvio que há necessidade de as nações se adequarem às limitações planetárias, reconhecendo de forma corretiva este momento civilizatório de forte intensidade das atividades humanas predatórias.

Essa constatação faz emergir mais e mais a necessidade de se buscar a solidariedade intergeracional, de todos, para um modelo de sustentabilidade que garanta a sobrevivência com qualidade de vida para a humanidade.

Por mais absurdo que possa parecer, diante da urgência transformadora impressa pelo cenário atual, ainda estamos assistindo a existência de governos com vôos erráticos, lastreados na negação científica, em golpes publicitários e na mentira.

A solidariedade assumiu há muito um papel preponderante nas relações internacionais e para a concepção da soberania nacional. A agenda Environmental, Social e Governance (ESG) despontou fortemente a partir de acordos multilaterais de árdua construção, como o Acordo de Paris, secundado por sucessivas metas de agendas como a Agenda 21, Objetivos do Desenvolvimento do Milênio e do Desenvolvimento Sustentável, das Nações Unidas. Fóruns globais de economia não podem mais se furtar ao cenário de limitações atuais e à necessidade de mudanças positivas.

Assim, a economia, como área de conhecimento estratégico, enfrenta o desafio de adequação às regras civilizatórias para sua sobrevivência, assumindo sua condição de subsistema dentro dos limites do ambiente planetário.

Como executores das políticas nacionais e global, não há mais tempo para as nações protagonizarem vôos de galinha erráticos como fizeram Donald Trump e seus seguidores. Trata-se de um processo onde os Estados nacionais e sua constituição temporal se lançam na consolidação de prática histórica, em direção à ética e ao respeito mútuo, como resposta responsável à construção de estruturas humanitárias de espírito democrático e solidário.

Essas estruturas humanitárias projetam vida longa com a construção de elementos para o diálogo das nações em sua relação multilateral, em processo de confiabilidade ética, como elementos basilares de um modelo global de paz e sustentabilidade.

O Brasil não pode ficar alheio a essas transformações, nas políticas internas e externas. O custo político e econômico de ser um pária ambiental é elevadíssimo no cenário atual. O Brasil deve retomar seu protagonismo no cenário das mudanças climáticas. O país lançou no ano passado 2,17 bilhões de toneladas brutas de dióxido de carbono equivalente (CO2e) e está cada vez mais distante da redução de emissões definida, em 2010, na Política sobre Mudança do Clima, isso sem falar das emissões do Pantanal neste ano, incluindo o fato de que o desmatamento da Amazônia cresceu 50% no mês de outubro.

*Carlos Bocuhy é presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoMeio AmbienteJoe BidenDonald Trump

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.