A simbologia do impeachment de Donald Trump

A simbologia do impeachment de Donald Trump

Marcelo José Suano*

20 de janeiro de 2021 | 08h00

Marcelo José Suano. FOTO: DIVULGAÇÃO

O impeachment de Donald Trump vem mostrando nos representantes no Congresso dos EUA à predisposição em pôr fim aos atos que iniciaram quando começou a apuração dos votos para presidente do país. A principal pergunta é: por qual razão tantas lideranças políticas se dispuseram a enfrentar o ainda presidente, sabendo-se que ele entregará o cargo em poucos dias. A resposta parece ser simples!

O avanço de Trump tem uma dimensão e risco poucas vezes vistos na história norte-americana, com uma ousadia inédita ao buscar dentro das instituições, especialmente nas brechas institucionais e, surpreendentemente, no contato direto com o seu eleitor, formas de reverter um resultado, para o qual alega a existência de fraudes que colocaram o sistema eleitoral estadunidense sob questionamento, trazendo sobre a democracia norte-americana uma pecha que dificilmente será esquecida, já que pôs em cheque um modelo de instituições que é apresentado para o mundo como padrão para a criação de uma sociedade democrática e, por isso, levando a perda da verve de se apresentar como farol moral e institucional para o mundo, uma das formas como os EEUU se apresentam quando executam sua política externa.

Trump jogou tudo isso na mesa, podendo ser visto por todos se realmente o farol estadunidense tem tal sinceridade, já que, por isso, carregando a certeza da lisura de seu modelo, em outros momentos os norte-americanos se apresentam com postura messiânica, como bem nos ensina Henry Kissinger em sua obra “Diplomacy”.

Mas, um acontecimento como o impeachment realizado por tal razão poderia acabar sendo reduzido a um ato de vingança, perdendo força e apoio! Há, contudo, outra condição, tão necessária quanto esta, que se mostra forte o suficiente para explicar a necessidade do afastamento do presidente, mesmo que ele esteja próximo de entregar o cargo: a política vive, se alimenta e necessita de símbolos, os quais precisam ser alimentados, cortejados, reverenciados, ou, contrariamente, extirpados, eliminados, extintos antes que deem frutos.

Se Trump representa um símbolo de contestação das instituições, então, da perspectiva dos seus adversários, e das lideranças e instituições norte-americanas, ele precisa ser eliminado enquanto símbolo da revelação das falhas daquela democracia, bem como de que é possível que com ousadia ela seja colocada no chão. A democracia não se confunde com o sufrágio, com o voto. Isto é uma das suas condições necessárias. Juntamente com ele são necessárias outras instituições que, em conjunto, se resumem em formas de controlar o poder daqueles ocupam cargos, os quais não podem ser personalizados, já que os líderes realizam funções que lhes são dadas pelo povo e as executam pelo prazo atribuído quando feitas as escolhas. É curioso, mas todos os sistemas de pesos e contrapesos, bem como as regras para impedir avanços ousados de ocupantes de cargos representam a força da democracia.

Este é o mote. Trump mostrou as falhas do sistema eleitoral dos EUA, apontou a possibilidade de fraudes indo a um ponto que, mesmo sendo alegado que ele não tinha provas, traz a dúvida sobre um sistema que terá de ser revisto ou acabará gerando a deslegitimação das escolhas dos representantes, das lideranças, e as consequências dessa situação é clara: sempre leva à violência e ao confronto social, com configurações variadas. Sendo assim, seus adversários e líderes políticos interpretaram que precisam mostrar que outras instituições da democracia, aquelas ligadas ao controle do poder, estão vivas e atuantes, ou seja, precisam mostrar ao mundo e à sociedade americana que a sua democracia ainda tem a força necessária para ser um modelo, e o sistema eleitoral poderá ser revisto em tempo hábil para que o legitimação social aos líderes seja preservada.

Trump se tornou para os seus adversários um símbolo que precisa ser eliminado e, de quebra, de forma bem mundana, o impeachment resolve o problema de não permitir que dispute cargos públicos, dentre eles a própria presidência, pois, independentemente do que possam falar, sempre ficará a imagem de uma massa gigantesca acompanhando seus discursos e se manifestando como ele diante dos resultados eleitorais.

Ao que tudo indica, o seu afastamento poderá esfriar esta onda! Mas, não esqueçamos que o ser humano tende a ser simpático àqueles que são vistos como vítimas de uma injustiça, também temos de lembrar que um símbolo é como um espírito que pode transitar de um corpo para outro e não se poderá descartar que encontre outro repositório onde habitar, afinal, a massa daqueles que concordam com Trump é muito grande, tanto no povo como entre as lideranças.

*Marcelo José Suano, doutor em Ciência Política pela USP, professor titular do curso de Relações Internacionais do Ibmec São Paulo

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