A saúde vai além da covid-19

A saúde vai além da covid-19

Ben-Hur Ferraz Neto*

09 de maio de 2020 | 13h00

Ben-Hur Ferraz Neto. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Desde que o mundo se deparou com a certeza da pandemia, da capacidade de propagação do vírus, das curvas e gráficos em crescimento exponencial e da chance de cenas de terror se multiplicarem por diversos países, com o colapso agudo dos sistemas de saúde, uma das sensações mais evidentes na sociedade tem sido o medo.

O medo nos coloca em estado de alerta, como uma forma de proteção  a riscos iminentes. Quando “equilibrado” ou “responsável” pode ser útil em nos afastar de perigos aos quais não precisamos nos expor.

Na medicina, o medo é uma sensação muito frequente, uma vez que a fragilidade da saúde nos impõe insegurança sobre a manutenção da vida. No entanto, a exacerbação do medo pode se transformar em pavor e nos levar a atitudes e comportamentos que, ao invés de nos proteger, nos colocam  frente a outras ameaças – às vezes ainda maiores do que aquelas que tememos.

Não sei exatamente em qual nível destas emoções estamos passando nesta crise do coronavírus, mas acredito que em relação a determinados cuidados médicos, andamos um tanto “desequilibrados’.

Médicos e enfermeiros dedicam-se incansavelmente a uma missão extenuante: salvar as vidas das pessoas infectadas pela covid-19. Em longas jornadas de trabalho, esses profissionais se revezam para cuidar desses doentes, muitas vezes lidando com o agravante da restrição de equipamentos ou leitos.

No Brasil, com o número de infectados aumentando a cada dia, seria de se imaginar que os hospitais estivessem lotados. Diariamente vemos na imprensa imagens de hospitais que vem se preparando para enfrentar grandes dificuldades  – muitos deles com seus leitos de Terapia Intensiva totalmente ocupados por pacientes em estado grave, com a covid-19. Por outro lado, surpreendentemente, a ocupação das enfermarias dos hospitais privados  e seu movimento diário caíram entre 40% e 50%. Alguns serviços, como os de radiologia intervencionista, que cuidam de pacientes com tumores, infartos e isquemias cardíacas, aneurismas de aorta ou cerebrais, tiveram seus procedimentos reduzidos a apenas 20% do habitual. Paradoxalmente, em meio a essa tormenta sem precedentes, muitos corredores de hospitais estão na mais absoluta calma. O mesmo esvaziamento pode ser notado nos laboratórios diagnósticos, onde o movimento caiu drasticamente. Onde foram parar os pacientes que precisavam fazer exames periódicos para controlar doenças crônicas? Onde foram parar os pacientes que necessitavam identificar tumores?

Um amigo médico comentou dias atrás que em vez das 10 a 12 angioplastias realizadas semanalmente em um determinado hospital da capital paulistas onde trabalha, nas últimas semanas o número havia caído para zero. Sim, você leu certo: ZERO. Seria possível que pacientes com isquemias cardíacas ou infartos deixassem de existir da noite para o dia?

A explicação que parece mais plausível é que pessoas com sintomas de uma dor no peito ou uma cefaléia mais intensa, estão se auto-medicando e esperando mais tempo para ver como estes “incômodos” se comportam, ao invés de imediatamente procurarem um serviço hospitalar, atrasando um potencial diagnóstico precoce ou mesmo um necessário e adequado tratamento menos invasivo. O mais preocupante é que, ao postergar seus tratamentos, alguns pacientes poderão vir a ter chances de serem duramente penalizados pela tardio diagnóstico e maior complexidade de suas complicações e tratamentos.

Alguns hospitais privados já comunicaram seus médicos de que estão aptos e retornando ao atendimento normal, permitindo internações e cirurgias eletivas. Muitos deles se programaram para oferecer segurança aos seus clientes e profissionais da área da saúde, isolando completamente alas de pacientes com covid-19. Pronto-socorros separaram fisicamente o atendimento de suspeitas ou casos confirmados de coronavírus de outros atendimentos, mas mesmo assim se encontram vazios.

Cabe a nós, profissionais da saúde, encontrarmos formas eficazes de alertar a todos que o tempo para o diagnóstico e tratamento de determinadas doenças (infartos, derrames, tumores, entre outros) determina os resultados médicos esperados.

Devemos nos proteger, distanciando-nos dos hospitais, mas não podemos negligenciar a confiança de que as instituições médicas estão preparadas para receber e tratar aqueles que correm riscos de saúde por outras doenças.

Fique em casa se estiver bem. Vá ao hospital ou procure seu médico caso tenha outros sintomas. Não adie um tratamento necessário. Cuidar da nossa vida vai muito além de se proteger da covid-19.

*Ben-Hur Ferraz Neto, livre-docente em Cirurgia pela USP, cirurgião de transplante de fígado do hospital alemão Oswaldo Cruz, Honorary Consultant Surgeon da University of Birmingham UK

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